Após a polêmica da chegada de empresas como o Skype no Brasil, o calor das discussões acerca da legalidade dos serviços de voz sobre IP oferecidos entre redes públicas e privadas parece ter arrefecido. Nos últimos dois anos, várias empresas entraram nesse setor por meio da oferta baseada em redes privadas quanto em redes públicas, incluindo importantes operadoras como a empresa-espelho GVT, a operadora de TV por assinatura NET, e as espelinhos Tmais, Transit Telecom, entre outras.
O desenvolvimento do mercado de serviços de VoIP era altamente esperado. Apesar das dúvidas sobre a assertividade do arcabouço regulatório, a ANATEL percebeu na tecnologia a oportunidade de promover a competição e reduzir tarifas no mercado de serviços de voz, ao passo que operadoras pequenas e novos investidores observaram a oportunidade de abocanhar uma fatia de um mercado que só em 2005 faturou R$ 59 bilhões, algo em torno de US$ 24 bilhões.
O que não era realmente esperado era a rápida resposta das concessionárias de telefonia fixa brasileiras ao avanço dos provedores de serviços de VoIP. Ao contrário da Telmex, no México, e da Telefónica CTC, no Chile, - que acabaram entrando em uma batalha legal com provedores de linhas VoIP locais, as concessionárias brasileiras reduziram rapidamente o calor do discurso, inclusive passando a lançar serviços de VoIP para usuários de banda larga com modelos de negócios iguais ou semelhantes aos seus novos concorrentes.
A Telemar lançou recentemente o "Oi VoIP", um serviço destinado aos clientes banda larga da operadora e que permite apenas a realização de chamadas de longa distância internacional. Igualmente, a Brasil Telecom lançou o VoIP Fone. Trata-se de uma linha VoIP para fazer e receber chamadas através de qualquer conexão de banda larga. O valor adicionado do serviço está na possibilidade de escolher uma linha VoIP em qualquer uma das sete capitais onde o serviço está disponível. Por meio de seu braço na Internet - o Portal Terra -, a Telefónica também já participa desse mercado com um serviço de VoIP dial-tone, embora a concessionária tenha planos de lançar uma versão do serviço diretamente aos usuários do Speedy.
Essas iniciativas, embora pioneiras entre as concessionárias de telefonia da América Latina, foram certamente influenciadas tanto pela morosidade da ANATEL em regulamentar temas polêmicos, quanto pela posição claramente favorável da agência regulatória a respeito dos serviços baseados nessa tecnologia. Além disso, é um fato que a oferta dos serviços de VoIP das operadoras possui uma proposta de valor relativamente limitada em relação aos seus competidores, ora restringindo o serviço a alguns clientes, ora restringindo seus clientes a apenas alguns serviços.
A oferta desses serviços pelas concessionárias tem provavelmente o objetivo maior de incluir a operadora no rol dos competidores VoIP ao invés de funcionar como uma nova unidade de negócios rentável. Nos EUA, por exemplo, a AT&T seguiu os mesmos passos. Embora a gigante das telecomunicações americana tenha lançado um serviço de VoIP há vários meses, é a base de clientes da Vonage que cresce com vigor.
Essa situação deverá mudar lentamente à medida que as concessionárias de telefonia percebam o impacto que os serviços de VoIP, oferecido por empresas como a GVT, terá sobre o tráfego tradicional de longa distância. Assim, no momento em que não for mais financeiramente vantajoso manter o status-quo, é provável que as concessionárias partam para as aquisições, absorvendo operações de empresas bem sucedidas e entrando definitivamente no mercado de serviços de VoIP como fortes competidores.
* Alex Zago é analista da Frost & Sullivan



