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A distância entre o setor de saúde e a transformação digital

Setor de saúde no Brasil vive uma dualidade entre investimento em renovação, expansão da estrutura e outras fontes geradoras de receita, e os aportes estratégicos em tecnologia. Segundo a Associação Brasileira CIO Saúde, estudos mostram que os investimentos nesta área, além de redução de custos e expansão do serviço, alinham as organizações de saúde ao perfil do paciente 4.0

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As instituições de saúde no Brasil precisam caminhar, e rapidamente, no sentido da transformação digital. À parte da realidade dos grandes hospitais e aqueles em regiões mais centrais, com acesso a recursos tecnológicos similar ao que ocorre nos países desenvolvidos, a 5ª edição da pesquisa TIC Saúde, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no final do ano passado, indica que o uso de computadores (90%) e acesso à internet (77%) nos estabelecimentos públicos se manteve estável em 2017. No entanto, a disponibilidade de infraestrutura básica se mostrou crítica entre as 39 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS): 12% das delas não possuíam computador e 28% não contavam com acesso à internet.

Especialistas afirmam que a utilização adequada dos recursos tecnológicos na saúde pode contribuir para aumentar a prevenção de doenças crônicas, reduzir fatores de risco e melhorar a qualidade e a expectativa de vida dos usuários. A consequência é diminuição da necessidade de cuidados médicos e os custos associados, beneficiando todo o ecossistema de saúde.

Essa distância traduz os desafios enfrentados pelos mais de 250 líderes de TI dos hospitais, ligados à ABCIS (Associação Brasileira CIO Saúde), na defesa do reconhecimento da tecnologia da informação como um braço estratégico das instituições de saúde e não como um serviço. Fábio Carvalho, gerente de Tecnologia da Informação do Hospital Adventista de São Paulo e diretor de mídia da ABCIS, destaca, como exemplo, da necessidade de digitalização dos hospitais. Segundo ele, somente 23% das instituições possuem prontuário eletrônico, a porta de entrada dos hospitais no universo da digitalização “e algo que impacta diretamente o faturamento e a qualidade do atendimento ao paciente”, pontua. Acompanhe a entrevista feita por email.

Que tipo de inovação tem impactado o setor e como isso chega aos hospitais brasileiros?
Fábio Carvalho: Inovação não é só tecnologia. Inovação pode ser mudança de cultura, de processos, tudo que é emergente e traz um valor agregado ao cuidado da saúde. Temos provocado os CIOs em discussões sobre estratégias de aplicação de transformação digital. Temos levado e incentivado a participação dos CIOs em eventos tecnológicos voltados à saúde fora do Brasil.

O que essas inovações em TI trazem tanto para médicos e outros profissionais de saúde quanto para os pacientes?
FC: Aos profissionais assistenciais e médicos, mais agilidade, segurança nas tomadas de decisões clínicas, assertividade no diagnóstico e no tratamento. Ao paciente, melhor cuidado da saúde, desospitalização, mais informação e clareza sobre seu estado de saúde, preditividade na identificação de patologias, etc.

É reconhecida a dificuldade de investimento dos hospitais públicos. Isso se repete na área de TI?
FC: Sem dúvida, mas não somente em hospitais públicos, nos privados também. Todo investimento concorre com a possibilidade de haver um novo leito, uma ala nova ou qualquer outra unidade geradora de receita.

Quanto os hospitais investem, em média, em TI, anualmente?
FC: Para se ter uma ideia, somente 23% dos hospitais do Brasil possuem prontuário eletrônico. Segundo pesquisa da Accenture de 2018, o prontuário eletrônico é um dos investimentos mais basal que reflete diretamente no faturamento. Imagina em outras áreas da TI?

Como os hospitais brasileiros estão lidando com a evolução das tecnologias disruptivas, como big data, IoT (internet das coisas), inteligência artificial, etc.?
FC: Muito tem se falado e pouco tem sido adotado. Somente os hospitais na vanguarda tecnológica, normalmente instituições que possuem frentes de inovação definidas. Entendemos que para a grande maioria são tecnologias embrionárias, porém promissoras.

Cloud pública, privada ou ambos, como estes serviços são consumidos pelos hospitais e quais são as preocupações e necessidades resolvidas?
FC: Cloud é uma questão de tempo, realidade para muitos e sonhos para outros tantos, Segurança, alta-disponibilidade sistêmica e performance são os fatores de relevância na adoção do cloud.

A área de saúde está entre os segmentos mais visados pelos ataques cibernéticos. Como avaliam este dado e quais são as ações empreendidas pela Associação?
FC: Não há dúvida de que os dados e informações clínicas de paciente valem muito. Todos os dias somos informados de alguma instituição de saúde que foi vítima desse tipo de ataque. A ABCIS tem firmado acordos com empresas de cibersegurança, tem apresentado aos CIOs empresas de produtos cada vez mais seguros e também temos estimulado ações de melhores práticas posteriores a ataques. Há um grupo técnico especial de segurança onde há encontros periódicos entre especialistas de segurança e membros da ABCIS.

Como os recursos de TI são aplicados para aumentar a segurança de pacientes no atendimento à beira de leito?
FB: Varia de hospital para hospital, o papel da ABCIS é viabilizar o encontro do CIO com as possibilidades técnicas de proteção e segurança à beira de leito existentes no mercado.

Ainda sobre TI, qual é o maior gargalo dos hospitais?
FC: Hospitais são como cidades, existem tamanhos e dores diferentes. No geral, o maior desafio acaba sendo o investimento.

Automatização da gestão de farmácias e rastreamento de medicamentos são movimentos importantes inclusive para aumentar a segurança dos pacientes. Qual é o status atual no Brasil?
FC: Não temos esse dado com precisão, porém hoje a maioria dos hospitais que possuem sistema de gestão informatizado e prontuário eletrônico do paciente já possuem um controle automatizado de estoque de medicamentos com inteligência e rastreabilidade medicamentosa. Outros possuem até robôs de dispensação automática integrado às prescrições médicas.

Como receberam a decisão do CFM de voltar atrás na regulamentação da Teleconsulta?
FC: Embora tenha parecido um retrocesso no avanço regulatório brasileiro, entendemos que é uma questão de tempo para que este movimento se solidifique. Foi assim nos países mais maduros na regulação e regras referentes a atos médicos.

Os hospitais já estavam estruturados para implementar o serviço?
FC: Sim, muitos já estão preparados tecnologicamente e estruturalmente para utilização de telemedicina. Vários inclusive já utilizam de maneira informal.
Temos que considerar que a regulação do CFM (quando evoluir novamente) impulsionará aqueles hospitais que ainda não estão preparados.

Que tendências é possível apontar para a TI no setor de saúde brasileira para os próximos anos?
FC: As mesmas identificadas em outros lugares do mundo como: Inteligência Artificial em decisões clínicas, RPA (Robotic Process Automation) para processos repetitivos ou robotização de procedimentos, a própria telemedicina com digitação automática com reconhecimento de voz, BI (business intelligence) e muito Analytics, interoperabilidade entre diferentes instituições, rastreabilidade de pacientes, preditividade diagnóstica, chatbots, conceito de gamefication em treinamentos assistenciais, reconhecimento de imagens e facial, TI sendo colocada no board de estratégia, etc. Não podemos esquecer da segurança da informação para suportar todas essas tendências. Entrevista originalmente publicada na revista Cisco Live Magazine

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