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Como a IA pode mudar a forma como consumidores escolhem produtos online?

Leandro Ferrari

Leandro Ferrari, especialista em Marketing Digital e cofundador do Grupo XFlow

Durante anos, vender no digital significou disputar a atenção do consumidor em redes sociais, páginas de venda, anúncios, buscadores e e-mails. Agora, uma nova camada começa a entrar nessa jornada: a inteligência artificial. Com assistentes capazes de pesquisar, comparar, recomendar produtos e, em alguns casos, avançar para etapas de compra, empresas e especialistas em vendas digitais passam a enfrentar uma mudança relevante: o consumidor pode deixar de ser o único intermediário entre a marca e a decisão de compra.

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Esse movimento vem sendo chamado de AI commerce ou agentic commerce, expressão usada para descrever experiências em que agentes de inteligência artificial participam da descoberta, comparação e escolha de produtos ou serviços. Na prática, isso significa que uma pessoa pode pedir a uma IA para encontrar o melhor curso, ferramenta, produto, serviço ou solução para determinado problema, e a recomendação não será baseada apenas em um anúncio bem segmentado ou em uma página visualmente persuasiva. Ela dependerá de contexto, reputação, clareza da oferta, dados disponíveis, avaliações, autoridade e consistência da presença digital da marca.

O tema ganhou força em 2026 após movimentos de grandes empresas globais. A OpenAI anunciou novas experiências de compra dentro do ChatGPT, com recursos de descoberta de produtos e comparação entre opções. A Mastercard também lançou o Agent Pay na América Latina e no Caribe, iniciativa voltada a pagamentos em ambientes de agentic commerce. Já análises da McKinsey apontam que empresas como Amazon, Google, PayPal, Mastercard e Shopify estão desenvolvendo serviços ligados a compras mediadas por agentes de IA, sinalizando que a mudança deixou de ser apenas uma hipótese tecnológica.

Para Leandro Ferrari, especialista em Marketing Digital e cofundador do Grupo XFlow, o impacto desse movimento vai além da automação. Ele mexe na forma como negócios digitais precisam construir prova, autoridade e distribuição. “Até pouco tempo, muita gente pensava a venda online como uma batalha por atenção. Agora, a disputa também passa a ser pela legibilidade. A inteligência artificial precisa entender claramente o que você vende, para quem você vende, qual problema resolve e por que sua oferta merece ser recomendada”, afirma.

Essa mudança é especialmente relevante para infoprodutores, experts, empresas digitais, e-commerces, creators e marcas pessoais que dependem de lançamentos, conteúdo e autoridade para vender. Em um cenário em que a IA pode influenciar a jornada antes mesmo do consumidor chegar ao site, não basta produzir conteúdo em grande volume. A marca precisa deixar sinais claros de especialidade, consistência, reputação e diferenciação.

O desafio também atinge páginas de venda e funis tradicionais. Textos persuasivos, depoimentos, chamadas comerciais e bônus continuam importantes, mas passam a dividir espaço com uma pergunta mais técnica: as informações da oferta estão organizadas de forma que sistemas consigam interpretar? Preço, proposta de valor, público-alvo, garantias, resultados esperados, limitações, avaliações e diferenciais precisam estar menos escondidos atrás de narrativas longas e mais estruturados para leitura humana e computacional.

Ferrari avalia que negócios digitais que dependem apenas de campanhas pontuais podem sentir mais dificuldade nesse novo ambiente. “Se a sua venda depende de uma narrativa que aparece durante sete dias de lançamento e depois desaparece, você fica vulnerável. O mercado caminha para um jogo em que reputação, histórico e clareza acumulada contam cada vez mais. A IA não olha só para o seu pico de campanha, ela tende a considerar o conjunto de sinais que sua marca deixa no ambiente digital”, explica.

Outro ponto importante é a relação com a mídia própria. Em um mercado dominado por algoritmos de redes sociais, muitos empreendedores concentram toda a distribuição em plataformas de terceiros. Com a chegada do AI commerce, canais próprios, conteúdos bem indexados, comunidades, newsletters, páginas institucionais, estudos de caso e bases de relacionamento ganham novo peso. Eles ajudam a construir uma trilha mais confiável para que pessoas e sistemas entendam a relevância de uma marca.

A mudança não elimina o papel do desejo, da criatividade e da conexão humana. Pelo contrário. À medida que a inteligência artificial assume parte da pesquisa e da comparação, o vínculo entre marca e público tende a se tornar ainda mais valioso. Empresas que têm comunidade, confiança e autoridade clara saem na frente porque não dependem apenas de aparecer no momento da compra. Elas já fazem parte do repertório do consumidor antes da recomendação.

Para o mercado digital brasileiro, o avanço do AI commerce abre uma discussão urgente: vender mais não será apenas uma questão de tráfego, criativo ou página bonita. Será preciso construir negócios mais compreensíveis, confiáveis e preparados para serem encontrados por pessoas e por máquinas. O futuro da venda online pode não pertencer a quem grita mais alto, mas a quem consegue ser entendido com mais clareza.

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