A construção de soberania digital tornou-se uma prioridade estratégica para países do Sul Global diante da concentração global de infraestrutura, plataformas e dados nas mãos de grandes empresas e governos ocidentais. Essa é a principal conclusão do relatório “BRICS_Digital_Sovereignty_Index_Report_EN”, divulgado internacionalmente durante o Fórum Zhongguancun 2026, realizado entre 25 e 29 de março, em Pequim, na China.
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No Brasil, o estudo foi apresentado durante o 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital, realizado pnos dias 18 e 19 de maio de 2026, em Brasília (DF). O evento reuniu pesquisadores, representantes do setor público, especialistas em tecnologia e integrantes de fóruns internacionais ligados ao BRICS+.
O estudo foi elaborado pelo Global South Academic Forum e pelo IDEAS (Institute for Digital Economy and Artificial Systems) e avaliou 11 países do BRICS e do BRICS+, incluindo Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Indonésia.
A pesquisa analisou políticas públicas, regulamentações, infraestrutura digital, capacidade tecnológica e participação internacional em regras de governança digital vigentes até 2025 e início de 2026. Segundo o relatório, foram coletadas 6.811 evidências durante o levantamento, das quais 5.138 foram validadas e utilizadas na análise final.
A publicação também incorpora o artigo acadêmico “Digital Sovereignty from a Global South Perspective: National Attitudes and Measurement Systems”, de autoria do pesquisador Jeff Xiong, publicado originalmente no periódico “Jinan Journal (Philosophy and Social Sciences Edition)”.
Durante o encontro realizado em Brasília, Xiong participou da mesa “Regulação das Plataformas e Soberania Digital”, ao lado de representantes do BRICS+ Tech Forum e especialistas de países do Sul Global, como o Uruguai. Na ocasião, o pesquisador apresentou a perspectiva asiática sobre a necessidade de construção de alternativas tecnológicas e infraestruturas públicas capazes de reduzir a dependência das grandes corporações transnacionais de tecnologia.
O relatório sustenta que o atual ambiente digital global é marcado por forte assimetria de poder, com Estados Unidos e aliados dominando infraestrutura de internet, plataformas digitais, padrões tecnológicos e regras globais de fluxo de dados. Para os autores, essa dependência coloca países emergentes em posição vulnerável econômica e geopoliticamente.
O documento relembra o escândalo PRISM, revelado por Edward Snowden em 2013, como marco da discussão sobre soberania digital. O texto cita que a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff, cancelou visita oficial aos Estados Unidos após denúncias de espionagem envolvendo comunicações da Petrobras e do governo brasileiro pela NSA.
A metodologia do Digital Sovereignty Index (DSI) considera quatro pilares: independência sobre dados, infraestrutura digital, governança digital e capacidade tecnológica. Cada país recebe notas em uma escala de 1 a 5, variando entre os níveis “Initial” e “Independent”.
O levantamento aponta a China como o país com maior grau de soberania digital entre os analisados, com destaque para infraestrutura, governança e capacidade tecnológica. Rússia e Índia aparecem em patamar intermediário, enquanto parte dos países africanos ainda permanece em estágio inicial de autonomia digital.
No caso do Brasil, o estudo identifica avanços em legislação e proteção de dados, especialmente após a implementação da LGPD e do fortalecimento da governança digital nos últimos anos. Ainda assim, o país mantém dependência relevante de infraestrutura, plataformas e tecnologias estrangeiras, principalmente em nuvem, software de base e semicondutores.
Quadro comparativo do índice de soberania digital
| País | Situação destacada pelo estudo |
|---|---|
| China | Lidera o ranking, com maior independência em dados, infraestrutura e capacidade tecnológica |
| Rússia | Forte governança digital, mas dependente de hardware externo |
| Índia | Destaque em talentos e capacidade digital |
| Brasil | Avanços regulatórios, mas dependência de infraestrutura estrangeira |
| África do Sul | Baixa independência em infraestrutura e capacidade digital |
| Emirados Árabes | Melhor desempenho em capacidade digital do que em governança |
| Egito | Estrutura ainda inicial em soberania digital |
| Etiópia | Baixa maturidade digital em infraestrutura e governança |
| Irã | Limitações em governança e infraestrutura |
| Arábia Saudita | Melhor desempenho em proteção de dados |
| Indonésia | Desenvolvimento mais equilibrado entre os quatro pilares |
O índice utiliza cinco níveis de maturidade, que vão de “Inicial” até “Independente”, para medir o grau de autonomia digital de cada país.
Média geral aproximada do Digital Sovereignty Index (DSI)
| País | Média geral aproximada* |
|---|---|
| China | Acima de 4,0 |
| Rússia | Entre 3,0 e 3,5 |
| Índia | 2,94 |
| Brasil | 2,94 |
| Indonésia | 2,75 |
| Arábia Saudita | 2,50 |
| Emirados Árabes Unidos | 2,37 |
| África do Sul | 1,94 |
| Egito | 2,00 |
| Etiópia | 1,81 |
| Irã | 1,94 |
*Cálculo baseado na média aritmética das quatro dimensões avaliadas pelo estudo: dados, infraestrutura, governança e capacidade digital.
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