O avanço acelerado da inteligência artificial, da automação e dos agentes autônomos está redesenhando a economia, o mercado de trabalho e as relações sociais em uma velocidade sem precedentes. A avaliação é do especialista em inovação e estudos do futuro Gil Giardelli, que participou nesta terça-feira, 09, do 6º Congresso Brasileiro de Internet (CBI), realizado em Brasília pela Abranet em parceria com o ITS.
CONTEÚDO RELACIONADO – IA, eleições, Pix e regulação digital dominam congresso sobre internet

“O debate não é apenas sobre inovação. É sobre como compartilhar os benefícios dessa transformação com toda a sociedade”, afirmou.
Segundo o professor, o mundo já entrou em uma nova fase, marcada pela expansão da inteligência artificial generativa, dos agentes autônomos e da chamada “Physical AI”, na qual sistemas inteligentes passam a interagir diretamente com o mundo físico por meio de robôs e dispositivos conectados.
O futuro do trabalho já começou
Um dos principais temas da palestra foi o impacto da automação sobre o emprego. Giardelli argumentou que o chamado “desemprego tecnológico”, previsto pelo economista John Maynard Keynes há quase um século, já está em curso. O problema, segundo ele, não é a destruição de postos de trabalho em si, mas a incapacidade das sociedades de preparar as pessoas na velocidade exigida pelas transformações tecnológicas.
O palestrante citou exemplos observados em universidades e centros de pesquisa internacionais, onde profissionais recém-formados enfrentam dificuldades para ingressar em determinadas áreas, ao mesmo tempo em que especialistas em campos estratégicos, como física, robótica e inteligência artificial, são altamente disputados.
Apesar das mudanças, Giardelli rejeita a ideia de um desaparecimento em massa das profissões. “Noventa por cento dos empregos continuarão existindo, mas serão profundamente redesenhados”, afirmou.
Na sua avaliação, atividades repetitivas, previsíveis ou de baixo valor agregado tendem a ser cada vez mais automatizadas. Em contrapartida, surgirão novas ocupações ligadas à criatividade, à ciência, à gestão de tecnologias avançadas e à interação entre humanos e máquinas.
Educação precisa ser reinventada
Para o especialista, a principal resposta às transformações não está na regulação, mas na educação. Giardelli apresentou dados que mostram a baixa preparação da população para a nova economia digital e destacou iniciativas de países como Singapura, Coreia do Sul e China, que realizaram investimentos estruturantes em capacitação tecnológica e científica.
Segundo ele, o modelo educacional atual já não acompanha a velocidade das mudanças. “Nove das dez principais profissões que ensinamos hoje passarão por um tsunami de transformação”, alertou.
O professor também chamou atenção para um fenômeno que classificou como “erosão cognitiva”, impulsionado pela facilidade de acesso instantâneo à informação. Para ele, saber encontrar respostas deixou de ser suficiente. O diferencial passa a ser a capacidade de compreender contextos, formular perguntas relevantes e desenvolver pensamento crítico.
Nesse cenário, defendeu uma educação de alto impacto desde a primeira infância, capaz de estimular competências humanas que dificilmente poderão ser replicadas por máquinas.
Criatividade será o novo petróleo
Se, no passado recente, os dados foram considerados o “petróleo do século XXI”, agora esse papel passa a ser desempenhado pela criatividade, afirmou. “O repertório cultural será mais importante do que simplesmente saber programar”, destacou.
Segundo ele, profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, visão humanística, pensamento crítico e criatividade terão maior capacidade de gerar valor em um ambiente cada vez mais automatizado.
Para isso, será necessário estimular ambientes que favoreçam a curiosidade, a diversidade de perspectivas e a convivência entre ideias diferentes – elementos que, segundo o palestrante, estão na origem dos processos de inovação mais relevantes.
Sociedade 5.0 e inclusão digital
Outro ponto central da palestra foi a necessidade de construir um modelo de desenvolvimento capaz de reduzir desigualdades e distribuir os benefícios das novas tecnologias. Giardelli citou o conceito de “Sociedade 5.0”, formulado no Japão, que propõe uma integração equilibrada entre inovação tecnológica, bem-estar social e sustentabilidade.
Na sua visão, a humanidade vive uma das maiores transições de sua história, impulsionada por inteligência artificial, computação quântica, robótica avançada, biotecnologia e outras tecnologias emergentes. No entanto, sem políticas voltadas para educação, inclusão e qualificação profissional, os ganhos poderão se concentrar em poucos grupos.
O especialista também alertou para o crescimento da sensação de exclusão em diferentes países, fenômeno que pode gerar tensões sociais e instabilidade política.
Ao encerrar sua participação, Giardelli afirmou que a transformação tecnológica é inevitável, mas seu impacto dependerá das escolhas feitas agora por governos, empresas e sociedade.
A mensagem final foi um chamado à ação coletiva para que a inovação seja acompanhada de inclusão, ética e desenvolvimento humano. “Ou o mundo será de todos, ou o mundo não será de absolutamente ninguém”, concluiu.
Participe das comunidades IPNews no Instagram, Facebook, LinkedIn, X e WhatsApp