Enquanto o número de assinaturas 5G cresce rapidamente na América Latina, as operadoras da região ainda deixam passar uma das maiores oportunidades de monetização da nova geração móvel: a oferta de serviços diferenciados baseados em 5G Standalone (SA) e Network Slicing.
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O alerta aparece no Ericsson Mobility Report 2026 e foi reforçado por Paulo Bernardocki, diretor de Soluções de Rede da Ericsson para o Cone Sul da América Latina. Segundo ele, os ingredientes tecnológicos já estão disponíveis nas redes brasileiras, mas a transformação em produtos comerciais ainda não aconteceu na velocidade necessária.
“A conectividade diferenciada está diretamente ligada ao Network Slicing, que por sua vez depende do 5G Standalone. Hoje vemos a América Latina bastante atrás das demais regiões do mundo nesse aspecto”, afirmou o executivo.
O relatório mostra que o mundo já conta com cerca de 390 operadoras oferecendo serviços comerciais 5G e mais de 90 delas operando redes 5G Standalone. Na América Latina, porém, a implementação do SA avança mais lentamente, mesmo com o crescimento acelerado das assinaturas 5G.
Atualmente, a região possui cerca de 110 milhões de acessos 5G. A expectativa da Ericsson é que esse número alcance 550 milhões até 2031, multiplicando por cinco a base atual. Mesmo assim, a adoção do 5G SA continua abaixo do esperado, o que pode atrasar a criação de novos serviços e modelos de negócio.
Segundo Bernardocki, o problema já não está na infraestrutura. “Os rádios de alta capacidade, o core standalone e os demais componentes necessários já foram implementados. O que falta agora é definir produtos e realizar os lançamentos comerciais”, disse.
Oportunidade perdida de monetização
A principal vantagem do 5G Standalone é permitir o chamado Network Slicing, tecnologia que cria múltiplas redes virtuais sobre uma mesma infraestrutura física, cada uma com níveis específicos de desempenho, latência e prioridade.
A Ericsson cita como exemplo um projeto realizado pela SoftBank durante uma etapa da Fórmula 1 em Suzuka, no Japão. A operadora criou cinco fatias independentes da rede para diferentes aplicações, incluindo transmissão de vídeo, realidade aumentada, conectividade premium para usuários, maquininhas de pagamento e áreas VIP.
O resultado foi um aumento de 4,1 vezes na velocidade de download e de 14,6 vezes na velocidade de upload em comparação com a edição anterior do evento.
Para Bernardocki, o mesmo modelo poderia ser aplicado imediatamente no Brasil. “Temos Fórmula 1, grandes shows em Copacabana, festivais como o Lollapalooza e estádios lotados todos os finais de semana. Os requisitos técnicos já existem. O que falta é transformar isso em oferta comercial.”
O executivo lembra que aplicações simples, como garantir prioridade para terminais de pagamento em grandes eventos, podem representar ganhos diretos de receita para comerciantes e organizadores.
IA e realidade aumentada mudam a lógica das redes
Outra mudança importante apontada pelo estudo é a transformação do perfil de tráfego móvel.
Historicamente, as redes foram projetadas para privilegiar o download de conteúdo. Agora, aplicações baseadas em inteligência artificial, realidade aumentada, sensores industriais, drones e dispositivos vestíveis começam a aumentar significativamente a demanda por upload.
Segundo a Ericsson, o consumo médio de dados por smartphone na América Latina deve saltar de 15 GB para 32 GB mensais até 2031. Além disso, o tráfego total da região deverá crescer de 8 exabytes para 21 exabytes por mês no mesmo período.
O principal desafio está na subida de dados. “A pressão sobre o uplink é inevitável”, afirmou Bernardocki.
Aplicações de realidade aumentada exigem que imagens e vídeos capturados pelos usuários sejam enviados continuamente para processamento em nuvem. O mesmo acontece com sistemas de IA multimodal capazes de interpretar o ambiente ao redor do usuário.
Se uma pessoa utilizar um óculos inteligente e perguntar à inteligência artificial o que está vendo, por exemplo, o vídeo precisará ser enviado para processamento remoto antes da resposta ser gerada.
Esse cenário faz com que a qualidade do uplink passe a ser tão importante quanto a velocidade de download.
Smart glasses reforçam necessidade do Standalone
Entre os dispositivos que mais devem impulsionar essa transformação estão os smart glasses.
De acordo com a Ericsson, esses equipamentos já apresentam crescimento em ritmo de dois dígitos e devem se tornar uma das principais interfaces para aplicações de IA nos próximos anos.
Para Bernardocki, a experiência oferecida por esses dispositivos depende diretamente das capacidades do 5G Standalone.
“Os smart glasses podem funcionar sobre o 4G, mas não conseguem garantir consistência de operação. Para oferecer baixa latência e estabilidade no envio de imagens, precisamos do 5G Standalone.”
A expectativa é que a popularização desses equipamentos amplifique ainda mais a necessidade de redes capazes de entregar desempenho previsível e priorização dinâmica de tráfego.
IA, cloud e mobile formam novo tripé corporativo
A Ericsson também identificou um novo modelo de transformação digital baseado na integração entre inteligência artificial, computação em nuvem e conectividade móvel.
Segundo Bernardocki, esse tripé deverá orientar os investimentos corporativos nos próximos anos e abre espaço para que operadoras ofereçam pacotes integrados de serviços.
“IA, cloud e mobile formam uma combinação extremamente poderosa para aquilo que as empresas vão precisar.”
A avaliação da fabricante é que as teles podem evoluir do papel tradicional de provedoras de conectividade para fornecedoras de plataformas digitais completas, integrando conectividade móvel, serviços de nuvem, processamento distribuído e aplicações de inteligência artificial.
Rede móvel será essencial para a IA física
Um dos conceitos destacados pela Ericsson é o da chamada IA Física (Physical AI), considerada a próxima etapa da evolução da inteligência artificial.
Diferentemente dos chatbots e assistentes digitais atuais, a IA Física está incorporada a máquinas, robôs, veículos autônomos, drones, sensores industriais e equipamentos que interagem diretamente com o mundo real.
Nesses ambientes, a conectividade deixa de ser apenas um meio de acesso à informação e passa a ser parte fundamental da operação.
“O mobile se mostra necessário, eu diria essencial, para a inteligência artificial física”, afirmou Bernardocki. Em ambientes industriais, por exemplo, robôs móveis, sistemas de inspeção automatizada e sensores inteligentes precisam operar com baixa latência, alta disponibilidade e desempenho previsível.
Segundo o executivo, redes Wi-Fi tradicionais nem sempre conseguem atender esses requisitos em cenários de mobilidade intensa, cobertura ampla e exigência de continuidade operacional. Já o 5G SA permite criar redes dedicadas, com qualidade de serviço garantida e gerenciamento centralizado.
Para a Ericsson, é justamente nesse conjunto de aplicações industriais, logísticas e corporativas que surgem algumas das maiores oportunidades de monetização para as operadoras nos próximos anos.
O desafio, segundo a empresa, é acelerar a transição para o 5G Standalone antes que a demanda por IA, automação e realidade aumentada avance mais rápido do que a capacidade das redes de acompanhá-la.
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