A expansão dos data centers deixou de ser uma pauta restrita à tecnologia e passou a ocupar posição central nas estratégias de desenvolvimento econômico dos estados brasileiros. Essa foi uma das principais conclusões do webinar “Data Centers impulsionam o Brasil Digital: os efeitos dessa transformação para os Estados”, promovido pela Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais) na quarta-feira (17).

Infraestrutura estratégica para a era da IA
Ao abrir o debate, Sergio Sgobbi lembrou que os data centers são muito mais do que instalações físicas para armazenamento de dados. Segundo ele, essas estruturas constituem a base da infraestrutura computacional que sustenta aplicações de inteligência artificial, serviços digitais, nuvem, internet das coisas (IoT) e sistemas públicos e privados de processamento de informações.
O executivo apresentou projeções da Brasscom segundo as quais o Brasil poderá receber até US$ 92 bilhões em investimentos em infraestrutura digital até 2031, desde que consiga reduzir barreiras tributárias e ampliar sua competitividade internacional.
Segundo Sgobbi, o país possui vantagens estruturais importantes, como matriz energética predominantemente renovável, estabilidade geopolítica, disponibilidade territorial e um dos maiores mercados consumidores da América Latina. No entanto, enfrenta desvantagens relevantes em relação a outros destinos concorrentes.
“O Brasil é entre 30% e 35% mais caro para investimentos em data centers quando comparado a países concorrentes como Chile, Colômbia, Uruguai e Estados Unidos”, afirmou.
De acordo com a entidade, cerca de 64% dessa diferença de custo está relacionada ao ICMS incidente sobre equipamentos e infraestrutura, tema que vem sendo discutido pelos estados no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz).
Rio Grande do Norte aposta em energia renovável e conectividade
Representando o governo potiguar, Álvaro Bezerra defendeu que a discussão sobre data centers deve ser tratada como uma agenda de desenvolvimento econômico e não apenas como um tema tecnológico.
“Essa discussão deixou de ser uma pauta meramente tecnológica. Ela passa a ser uma pauta de desenvolvimento econômico”, afirmou.
O secretário argumentou que o Rio Grande do Norte reúne características que o posicionam como potencial destino para investimentos de hiperescala, especialmente pela oferta abundante de energia renovável, disponibilidade de áreas para expansão e localização geográfica estratégica.
Segundo ele, o estado produz atualmente cerca de quatro vezes mais energia do que consome internamente, com liderança nacional na geração eólica. Além disso, sua proximidade com a Europa e a África favorece projetos relacionados à conectividade internacional por cabos submarinos.
Bezerra também ressaltou que o avanço da inteligência artificial está mudando a lógica de localização dos data centers. Para ele, a proximidade dos grandes centros consumidores deixa de ser o principal fator, dando lugar à disponibilidade de energia, conectividade, espaço físico e sustentabilidade.
“Agora você precisa estar efetivamente onde tem energia, conectividade, disponibilidade territorial, rapidez de implantação e sustentabilidade”, explicou.
Incentivos fiscais entram no centro do debate
Um dos principais pontos discutidos durante o webinar foi a necessidade de harmonização das políticas tributárias estaduais para aumentar a competitividade do país na atração de investimentos.
Bezerra defendeu o avanço das discussões sobre incentivos fiscais para data centers dentro do Confaz e afirmou que o Rio Grande do Norte apoia medidas que permitam reduzir os custos de implantação desses empreendimentos.
“O Brasil possui todas as vantagens extraordinárias, mas precisamos construir um ambiente competitivo e previsível para que esses investimentos escolham o país”, disse.
O secretário destacou ainda que a disputa não ocorre entre estados brasileiros, mas entre o Brasil e outros mercados internacionais que já vêm adotando políticas agressivas para atrair projetos de infraestrutura digital.
“Não estamos competindo entre estados. Estamos competindo com outros países. Há espaço para todos nesse mercado que cresce de forma exponencial”, afirmou.
Scala: Brasil vive oportunidade histórica
A executiva citou dados internacionais que apontam que o setor respondeu sozinho por cerca de um quinto de todos os investimentos estrangeiros globais em 2025 e destacou que os investimentos previstos pelas principais empresas globais de tecnologia em 2026 ultrapassam US$ 640 bilhões.
Segundo Cibele Perillo, a demanda global por infraestrutura digital cresce de forma acelerada e a principal questão para os investidores é onde esse capital será alocado.
Segundo ela, o Brasil reúne atributos extremamente competitivos, como energia renovável, disponibilidade de terrenos e conectividade internacional, mas ainda perde atratividade devido ao ambiente tributário.
“O país precisa reforçar seus aspectos de segurança regulatória, previsibilidade e estabilidade. Temos uma conjuntura global favorável e condições domésticas excelentes, mas ainda somos menos competitivos do que outros países que disputam esses investimentos”, avaliou.
Cibele mencionou que mercados como Índia, Austrália, Chile, Paraguai e países do Sudeste Asiático têm avançado rapidamente na criação de ambientes favoráveis à instalação de data centers.
Para a executiva, os benefícios vão muito além da infraestrutura física. “O data center é uma âncora de desenvolvimento econômico. O que começa como infraestrutura depois transborda para ecossistemas de inovação, geração de empregos qualificados, desenvolvimento tecnológico e renda acima da média”, destacou.
Questão ambiental entra na pauta
Perguntado sobre como o Rio Grande do Norte está tratando a regulamentação municipal dos data centers e os desafios ambientais associados à expansão do setor, Bezerra afirmou que o tema vem sendo acompanhado com atenção pelo governo estadual.
“Com todo o cuidado, queremos atrair grandes data centers, mas com toda a preocupação ambiental necessária. Esse tema também tem sido objeto das nossas discussões internas”, declarou.
O secretário ressaltou que o desenvolvimento da infraestrutura digital deve ocorrer de forma alinhada às práticas de sustentabilidade e à preservação ambiental, tema que ganha relevância à medida que cresce a demanda por energia e capacidade computacional para aplicações de inteligência artificial.
Brasil busca espaço na nova economia digital
Ao final do encontro, os participantes convergiram na avaliação de que o Brasil possui condições únicas para se tornar um dos principais polos globais de infraestrutura digital, mas que o avanço dependerá de maior coordenação entre governo federal, estados e setor privado.
A discussão ocorre em um momento em que o país também debate iniciativas como o Redata e propostas de incentivos tributários voltadas à infraestrutura digital.
Para a Brasscom, a combinação entre energia renovável, conectividade internacional, mercado consumidor robusto e formação de talentos cria uma oportunidade estratégica para posicionar o Brasil na nova geografia global dos investimentos em data centers.
Como resumiu Álvaro Bezerra durante o webinar: “Estamos apenas no início de uma grande transformação mundial. O Brasil precisa se colocar nesse movimento para construir a infraestrutura que sustentará a inteligência artificial e o crescimento econômico das próximas décadas.”
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