Durante o Encontro Nacional de Provedores, realizado esta semana em São Paulo pela Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), o diretor da entidade, Basilio Perez, atendeu um pedido de entrevista do Portal IPNews e explicou qual a sua visão para a implementação do 5G. Em sua perspectiva, o edital para o leilão de frequências precisa ser dividido por cidades e não pode ser arrecadatório. “Não podemos ficar de fora da brincadeira”, afirma.
Perez também comentou sobre formas que provedores podem aproveitar o mercado que se abre com o 5G e também sobre sua atuação a frente da recém-fundada Federação das Associações Latino Americana e do Caribe de ISPs (LAC-ISP), bem como as expectativas da Abrint para 2019. Confira:
PORTAL IPNEWS: Como os provedores regionais podem aproveitar o mercado 5G?
Basilio Perez: Vai depender de como vier o edital das frequências para o 5G. Se o edital vier com regiões muito grandes, de referências estaduais ou mesmo nacional, não poderemos aproveitar porque vai custar bilhões e não terá como o provedor participar. O único jeito de aproveitarmos é se algumas frequências forem divididas por cidades, porque aí pode ser que o preço não seja tão proibitivo para o nosso setor. É importante que a Anatel não faça um leilão meramente arrecadatório, como foi feito no passado.
Que frequências seriam essas?
BP: Em um primeiro momento, nos interessaria as frequências de 450 MHz, se entrarem no edital, e de 26 GHz. Por que essa última? Porque tem uma distância de atendimento muito pequena, de algumas centenas de metros, e o sinal não passa por barreiras, sendo uma frequência que vai trabalhar em locais pequenos e projetos específicos e pode ser um complemento para o provedor. Ele pode chegar com a fibra em determinado lugar e atender algumas casas com 5G, sem fazer o último trecho de fibra. O 450 MHz é para atender áreas rurais.
Que outros projetos o ISP pode trabalhar?
BP: Quando falamos de 5G para o provedor, não estamos falando de conectividade móvel. Num primeiro momento, a gente vislumbra um acesso de Internet em casa de última milha com alta qualidade. O 5G conta com outras características que poderemos explorar, mas a gente precisa esperar ele se desenvolver.
O 450 MHz é interessante para casos rurais e uso de Internet das Coisas (IoT). Se tivermos a frequência, podemos utilizar qualquer tecnologia de conectividade – dentro das regras de uso dela – para prover conexão aos sensores.
Em painel que você participou, Artur Coimbra, diretor do departamento de banda larga do do MCTIC, deu a ideias de como as frequências podem ser distribuídas para aproveitar melhor o 5G. O que você achou das ponderações?
BP: Ele disse que, nos Estados Unidos, os leilões foram feitos por cidades e foram mais criativos, para deixar que cada local pudesse desenvolver o 5G ao seu modo. O uso não licenciado é interessante também e traz a vantagem de nem precisar participar de leilão. O leilão seria para o uso primário da frequência. Se houver regras de que ela possa ser usada regionalmente, não vai causar problemas para ninguém porque ela tem distância de funcionamento muito baixa. Só vai causar interferência se fizer instalação do lado de uma antena. O que não deve ocorrer, pois ISPs estão muito pulverizados.
Qual a expectativa na mudança da lei de compartilhamento de postes?
BP: Nossa esperança é que eles não eliminem o preço do regulamento. Queremos que eles tenham a posição firme para definir o preço máximo que poderá ser cobrado por ponto de fixação. Esse valor não pode ser abusivo, tem que ser em torno de R$ 6. Aí as negociações não seriam mais entre agências, mas sim entre distribuidora de energia e provedores.
Esse valor poderia ser diferente em razão da região do País?
BP: Diferenças de regiões não é um problema e sim a isonomia entre empresas. Não pode haver preço diferente entre quem contrata 100 postes e quem contrata 1 milhão. Não faz diferença pra distribuidora e, se der um problema, a chance de ser pior com quem contratou mais é maior. De repente, o pequeno provedor dá menos trabalho que uma grande empresa. Não existe lógica de preço por quantidade.
Qual o objetivo do LAC-ISP?
BP: Ela foi criada a menos de um mês e seu objetivo é trocar experiências com as associações de provedores de outros países e replicar modelos que deram certo, evitando problemas. Na semana passada, eu estive no México e, em um jantar com a participação do equivalente ao MCTIC mexicano, e eles ficaram interessados no modelo brasileiro, devido à quantidade de provedores que temos. Aqui temos 11 mil e lá eles tem 300, devido ao mercado fechado, quase um monopólio privado (a América Móvil tem a maior parte do mercado no país). Em contrapartida, o ponto de fixação no poste lá custa US$ 4 por ano.
O Brasil se põe em liderança no mercado de provedor latino?
BP: Em termo de quantidade, sim, somos líderes e até mesmo em um contexto mundial. Não existe nenhum país com 11 mil operadoras como aqui. Em comparação de abertura de mercado, estamos na liderança na região. Temos mais clientes em fibra óptica que o resto. Em quantidade de casas com banda larga, estamos atrás da Argentina, onde lá tem penetração de 90% e aqui 60% – mas é uma população menor. O Chile não tem muito provedor, mas não tenho números. Comparando com Equador, Colômbia e México, que são os outros países que fazem parte do LAC-ISP, estamos na frente.
Qual a expectativa de crescimento e perspectivas para esse ano?
BP: Devemos repetir os números dos anos anteriores, mesmo com a economia do jeito que está. Os provedores crescem o número de clientes na faixa de 20% e 25% por ano. Já o governo precisa aprovar a reforma da Previdência e se dedicar a outras coisas, como a reforma tributária. Tem muitas pautas importantes não só para os provedores, mas para o Brasil. Estamos otimistas.
