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Uruguai avança em conectividade, mas expõe limites de um modelo sem indústria local

O Uruguai se consolidou como um dos mercados de telecomunicações mais avançados da América Latina e, ao mesmo tempo, um dos mais singulares. Com cerca de 3,3 milhões de habitantes, o país atingiu níveis elevados de conectividade e cobertura, mas enfrenta um desafio estrutural: a ausência de uma indústria local de telecomunicações.

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Durante o painel no Abrint Global Congress 2026, o diretor de telecomunicações do Ministério da Indústria, Energia e Mineração, Pablo Siris, foi direto ao definir o estágio atual do país. “Não se trata mais de universalizar o acesso, mas de universalizar o uso”, afirmou.

O país já alcançou cobertura próxima de 100% e deve conectar, ainda este ano, as poucas localidades restantes com menos de 500 habitantes. Esse avanço é sustentado por um modelo centrado no Estado, com a operadora pública Antel liderando investimentos em infraestrutura e expansão da fibra óptica.

Hoje, a Antel concentra a maior parte do mercado, com domínio quase absoluto na banda larga fixa e forte presença no móvel, consolidando um ambiente de alta cobertura, mas com menor diversidade competitiva .

Além da conectividade, o país vem avançando para uma nova camada estratégica: a infraestrutura digital. O governo uruguaio passou a posicionar os data centers da Antel como peça central da sua estratégia digital, com foco em processamento local de dados, inteligência artificial e serviços em nuvem.

O movimento inclui investimentos relevantes na expansão da infraestrutura, com planos que somam centenas de milhões de dólares em fibra e data centers para atender à crescente demanda por serviços digitais e IA, com a lógica de manter os dados dentro do país, reduzir dependência externa e avançar em soberania digital.

Esse reposicionamento também busca transformar o Uruguai em um hub regional de serviços digitais, conectando infraestrutura de rede, capacidade computacional e integração internacional.

Apesar desse avanço, o próprio governo reconhece um limite importante. “Não temos indústria local. Não produzimos equipamentos, nem fibra, nem componentes”, destacou Siris durante o painel. A dependência tecnológica externa reduz a capacidade de capturar valor na cadeia e limita o desenvolvimento de um ecossistema mais completo.

Esse é o principal paradoxo uruguaio: um país que conseguiu resolver o acesso e agora avança em conectividade significativa, mas que ainda não internalizou a produção tecnológica necessária para escalar inovação.

Ao mesmo tempo, o foco em uso qualificado da conectividade ganha protagonismo. O país conectou escolas, universidades e órgãos públicos e agora direciona esforços para ampliar aplicações, como serviços digitais e estratégias nacionais de inteligência artificial.

Ainda assim, desafios persistem. Há desigualdades no uso da tecnologia entre diferentes grupos da população, especialmente entre jovens altamente digitalizados e idosos com menor adoção de ferramentas digitais, um gap que exige políticas públicas voltadas à capacitação e inclusão.

O caso uruguaio mostra que é possível atingir níveis avançados de conectividade com forte coordenação estatal e investimentos consistentes. Mas também evidencia que o próximo salto, especialmente no contexto do Sul Global, depende de algo além da infraestrutura: passa por indústria, inovação local e capacidade de capturar valor na economia digital.

Mais do que um modelo a ser replicado, o Uruguai se posiciona como um alerta estratégico para a região: conectar é apenas o primeiro passo. O desafio real está em transformar conectividade em desenvolvimento, e isso exige muito mais do que rede.

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