Economia Digital

Inteligência Artificial: estamos produzindo mais e pensando de menos?

A corrida pela adoção de inteligência artificial nas empresas já não é mais novidade. O discurso dominante segue ancorado em eficiência, produtividade e inovação. Mas, por trás desse avanço acelerado, começa a surgir um alerta menos evidente e mais sofisticado.

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Executivos e especialistas têm observado um fenômeno silencioso: profissionais cada vez mais rápidos para executar tarefas, mas nem sempre mais preparados para analisar, questionar e tomar decisões com profundidade.

A reflexão ganha força em discussões recentes de eventos globais, como o SXSW 2026, realizado em Austin (EUA), onde o debate deixou de focar apenas em tecnologia e passou a abordar seus impactos no comportamento humano, na liderança e na forma como o trabalho está sendo redesenhado. 

Ao mesmo tempo, a influência da inteligência artificial sobre decisões estratégicas cresce rapidamente. Um levantamento da PwC mostra que 86% dos executivos acreditam que a tecnologia será central para a tomada de decisão nos próximos anos.

Para Juliana Velozo, executiva com atuação internacional em estratégia, inteligência artificial e comportamento humano nos negócios, o ponto central não está na tecnologia em si mas, na forma como ela vem sendo utilizada.“A inteligência artificial está reduzindo drasticamente o custo da execução. Mas o custo da coordenação, do julgamento e da responsabilidade continua alto e muitas organizações ainda não estão preparadas para essa mudança”, afirma.

Esse deslocamento altera o centro de valor dentro das empresas. Durante décadas, estruturas corporativas foram desenhadas para otimizar processos, repetição e escala. Com a automação dessas tarefas, o diferencial deixa de estar na execução e passa a depender de competências mais complexas.“O risco não está em usar IA. Está em usar de um jeito que enfraquece o discernimento em vez de ampliá-lo”, explica Juliana.

O risco invisível: menos esforço cognitivo, menos profundidade

Esse cenário começa a levantar uma preocupação relevante no ambiente corporativo: a chamada “atrofia cognitiva”. O conceito parte da ideia de que, assim como um músculo, o cérebro precisa ser exercitado para manter sua capacidade de análise e aprendizado.

Quando etapas importantes do raciocínio são terceirizadas de forma precoce para sistemas inteligentes, o ganho imediato de produtividade pode vir acompanhado de uma perda gradual de profundidade intelectual. “Se terceirizarmos cedo demais o esforço cognitivo, podemos ganhar velocidade mas, perder capacidade de pensar com consistência. E isso, no longo prazo, é um risco estratégico”, diz.

Mas o aumento de dados e velocidade não garante qualidade. Estudos do MIT Sloan Management Review em parceria com a Boston Consulting Group indicam que empresas que adotam IA sem maturidade estratégica tendem a apresentar decisões mais inconsistentes — mesmo com maior acesso à informação.

Mais velocidade, mais dependência?

A discussão também traz implicações diretas para liderança e formação de equipes. Em um contexto onde a execução se torna cada vez mais automatizada, cresce a diferença entre profissionais que utilizam a tecnologia de forma crítica e aqueles que apenas reproduzem respostas.“O problema não é a inteligência artificial. É a falta de inteligência estratégica no uso dela”, resume.

Na prática, isso cria uma divisão cada vez mais visível dentro das organizações: de um lado, profissionais capazes de orquestrar, validar e tomar decisões com base no uso da IA; de outro, aqueles que passam a depender da tecnologia sem desenvolver autonomia analítica.

Mais do que uma questão operacional, trata-se de uma mudança estrutural na forma como valor é criado.

A próxima vantagem competitiva

“A próxima vantagem competitiva não virá apenas da adoção de IA, mas da capacidade de combinar tecnologia com profundidade humana – julgamento, repertório, responsabilidade e capacidade de lidar com complexidade”, afirma Juliana.

Para ela, empresas que ignoram essa dimensão correm o risco de se tornarem mais rápidas, mas também mais frágeis.“Tecnologia amplia capacidade. Mas não substitui critério. E, no fim, são decisões bem tomadas – não respostas rápidas – que sustentam resultados consistentes.”

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