A busca por soberania digital deixou de ser apenas um tema regulatório e passou a integrar as estratégias de competitividade econômica, segurança nacional e autonomia tecnológica de governos e empresas em todo o mundo. Estudos recentes da IDC e do Gartner mostram que a combinação entre inteligência artificial agentic, tensões geopolíticas e riscos regulatórios está impulsionando uma mudança estrutural no mercado global de cloud computing.
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Segundo o relatório FutureScape 2026, da IDC, a adoção de IA baseada em agentes autônomos deverá transformar a operação das empresas até o fim da década. A consultoria projeta que, até 2030, 45% das organizações irão orquestrar agentes de IA em larga escala, integrando essas tecnologias em diferentes áreas do negócio.
A expansão da IA, no entanto, vem acompanhada de preocupações crescentes com governança, controle de dados e dependência tecnológica. De acordo com a IDC, até 2028, 60% das organizações com exigências de soberania digital irão migrar cargas críticas para novos ambientes de nuvem como forma de reduzir riscos geopolíticos e ampliar sua autonomia operacional.
Para Meredith Whalen, chief product, research & delivery officer da IDC, a IA agentic representa um ponto de inflexão estratégico para as empresas. Segundo ela, o avanço da tecnologia está mudando não apenas a velocidade da inovação, mas também a forma como o trabalho será realizado e como os setores econômicos irão evoluir.
O relatório destaca que as empresas precisarão desenvolver estratégias de IA alinhadas ao valor de negócio, modernizar infraestrutura tecnológica e criar ambientes mais resilientes e confiáveis para lidar com um cenário de crescente instabilidade global.
“Geopatriação” impulsiona nuvens locais
As conclusões da IDC convergem com um novo estudo da Gartner sobre o mercado de sovereign cloud. A consultoria estima que os investimentos globais em infraestrutura de nuvem soberana (IaaS) alcançarão US$ 80 bilhões em 2026, crescimento de 35,6% em relação ao ano anterior.
Segundo o Gartner, governos, operadoras de telecomunicações, utilities e setores regulados lideram esse movimento em busca de independência digital e proteção de dados críticos.
O conceito de “geopatriação” – movimento de repatriação de workloads para provedores locais ou regionais – aparece como um dos principais vetores dessa transformação. A consultoria projeta que 20% das cargas atualmente hospedadas em hyperscalers globais serão transferidas para provedores locais de cloud nos próximos anos.
Para Rene Buest, diretor analista da Gartner, o objetivo de muitos países é manter a geração de riqueza e o controle tecnológico dentro de suas próprias fronteiras. Segundo ele, os grandes provedores globais precisarão adaptar suas estratégias às exigências de soberania de cada país, indo além das tradicionais abordagens focadas apenas em segurança e compliance.
Europa, Ásia e Oriente Médio aceleram investimentos
Os dados do Gartner mostram que Europa, Ásia e Oriente Médio lideram o crescimento proporcional dos investimentos em sovereign cloud. Em 2026, a região de Middle East and Africa deverá registrar expansão de 89%, seguida pela Ásia-Pacífico madura, com 87%, e Europa, com 83%.
Embora China e América do Norte ainda concentrem os maiores volumes de investimento, a Europa deve ultrapassar os Estados Unidos em gastos com sovereign cloud já em 2027.
O avanço das estratégias soberanas também pressiona hyperscalers globais a regionalizar operações, ampliar controles locais e oferecer garantias mais robustas de residência e governança de dados.
IA, regulação e infraestrutura crítica
A soberania digital também ganha força diante do crescimento dos riscos associados à IA. A IDC alerta que, até 2030, até 20% das organizações do grupo G1000 poderão enfrentar processos judiciais, multas e até demissões de CIOs devido a falhas de governança envolvendo agentes autônomos de IA.
Ao mesmo tempo, a consultoria projeta que empresas sem dados preparados para IA terão perdas de produtividade de até 15% até 2027.
O cenário reforça uma tendência cada vez mais presente em governos e empresas: infraestrutura digital, nuvem e inteligência artificial passam a ser tratados como ativos estratégicos de Estado e pilares de soberania econômica.
Para o setor de telecomunicações, conectividade e data centers, o movimento abre novas oportunidades para provedores regionais, operadoras e empresas locais de cloud, que passam a disputar espaço em projetos antes concentrados nas grandes plataformas globais.
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