Análise Setorial

A consolidação do setor aéreo e os riscos de um novo apagão

 

O transporte aéreo cresce gradativamente, assim com as fusões no setor. Mas, para suportar a demanda, a infraestrutura aeroportuária deve entrar em transformação.

 

Há alguns anos, o setor aéreo vem se consolidando por meio de fusões. Somente este ano, no mercado internacional, duas grandes operações foram anunciadas, como as fusões da British Airways e Iberia e United Airlines e Continental. No Brasil, no mês passado, vimos a TAM e a Lan Chile também anunciarem intenção de fusão. Esse movimento surge da necessidade competitiva de mercado, da forte procura de economias de escala e de maior eficiência por parte das companhias.

No Brasil, o transporte aéreo cresce gradativamente, tanto em vôos para turismo – em função do crescimento do poder aquisitivo das classes C e D e do barateamento das passagens – como para negócios. E a tendência é de mais crescimento, seja como o aquecimento interno da economia, seja para atender a grande demanda esperada para a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

No caso das duas maiores companhias brasileiras, Gol e TAM, o mercado doméstico ainda representa a maior parte da receita, mesmo com a TAM cada vez mais internacionalizada. O crescimento acelerado da aviação regional também impulsiona companhias como Azul, Trip e Passaredo. No mercado internacional, o grande potencial surge com a criação de novas conexões e rotas. Um bom exemplo é a TAP, para a qual o foco de crescimento foi novas rotas entre a Europa e o Brasil, inclusive em eixos não convencionais como as cidades do nordeste.

Seja no mercado doméstico como no internacional, as fusões aparecem como uma solução para a necessidade de eficiência e ganhos de escala. A transação entre TAM com a Lan, por exemplo, foi impulsionada pela oportunidade de haver um player latino americano, agora mais forte, competitivo internacionalmente, em linha como o posicionamento de grandes companhias internacionais. Outro fator importante foi a própria atratividade do setor aéreo latino americano, ainda menos regulamentado do que outros mercados. Se consideramos a soma dos resultados líquidos das companhias aéreas por continente e as complementaridades em termos financeiros e operacionais, os mercados da América Latina se comportaram bem em 2009.

Em relação aos movimentos e às negociações futuras de outras companhias brasileiras, ainda há possibilidades para aquelas que se buscam fortalecer diante da concorrência. Empresas menores, como a Trip e Azul, preparam-se para a abertura de capital (“IPO”). Além disso, o projeto de lei que irá aumentar o limite de capital estrangeiro em empresa aérea brasileira dos atuais 20% para 49% deve facilitar a entrada de investimentos externos e as transações com companhias mundiais.

Especificamente sobre a Gol, que enfrentou uma serie de dificuldades operacionais e financeiras nos últimos dois anos, acreditamos na possibilidade de a empresa começar a pensar em se reestruturar e, eventualmente, procurar um parceiro, no mesmo modelo que a TAM. Há poucos candidatos para isso na América Latina e talvez seja mais fácil pensar numa aliança com uma empresa regional no curto prazo.

Além dos investimentos realizados pelas próprias companhias para suportar o crescimento da demanda interna e da concorrência, vale lembrar que, para que o setor não entre em colapso, a infraestrutura aeroportuária deve entrar urgentemente em transformação. Isso quer dizer investir rapidamente em equipamentos de controle aéreo, pistas, novos terminais ou aeroportos e até estacionamentos. Somente com a atuação conjunta das empresas e dos investimentos públicos, o setor conseguirá ficar longe de um novo apagão aéreo.

* Vincent Baron é diretor da Naxentia, graduado em administração e possui MBA da Insead. Nascido na França, está no Brasil há oito anos. Especialista em reestruturação, foi diretor da Alvarez & Marsal, atuou na Oliver Wyman, Deloitte e  no Banco Société Générale.

 

 

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