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A economia digital da América Latina passada a limpo

Os países da América Latina estão às voltas com os ajustes das políticas públicas e regulações para elevar a economia da região ao patamar da digitalização. Há exemplos bem-sucedidos em educação, saúde e governo eletrônico. A banda larga avança rápido em alguns países, mas ainda carece de investimentos para que a inclusão seja plena. Sebastián Rovira, oficial de Assuntos Econômicos da Unidade de Inovação e Novas Tecnologias da Divisão de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e Caribe – faz um balanço do processo de transformação digital na região e destaca que uma força de trabalho qualificada, que inclua trabalhadores com pelo menos alguma experiência terciária é um fator-chave para promover o desenvolvimento econômico e social sustentável na região.

Estamos vivendo um momento de dirupção provocado principalmente pelo uso intensivo da tecnologia em todas as atividades. Qual o impacto desse movimento para a América Latina?

Sebastián Rovira: As Tecnologias digitais estão modificando serviços, produtos, organizações e mercados a uma velocidade e escala sem precedentes. A correlação entre o nível de adoção destas tecnologias, o crescimento econômico e a competitividade também é evidente. Além disso, os benefícios para as pessoas são indiscutíveis na medida em que estas tecnologias permitem acessar a novos produtos e serviços de forma mais eficiente, a preços e custos menores. A produtividade das empresas é favorecida pela digitalização, algo que se repete com os serviços de governos que vêm ganhando mais eficiência e transparência.

Vários estudos comprovaram o impacto direto e indireto que as tecnologias digitais exercem sobre o crescimento da região. Por exemplo: a CEPAL identificou que, para um grupo de países, o investimento em TIC gera crescimento de 0,5 pontos do PIB. Entretanto, deve-se acrescentar que o acesso à internet e a sua contribuição econômica não é linear e depende de variáveis complementares, como a qualidade do capital humano, a capacidade inovadora e as trocas organizacionais. Potencializar o impacto das novas tecnologias digitais é uma tarefa complexa, que requer várias ações políticas em questões institucional e regulamentar.

Artigo: Como aperfeiçoar os impactos da Indústria 4.0 sobre a produtividade, estoques e resultados das empresas?

Como os países da AL se ocupam com a transformação digital?

Rovira: Um dos principais instrumentos para guiar a transformação digital dos países da América Latina são as agendas e estratégias digitais. De acordo com a recente revisão realizada pela CEPAL, 16 países da região contam com agendas digitais em nível nacional. Alguns deles, como o Uruguai e a Colômbia, já se encontram na terceira versão deste tipo de instrumento de planejamento. Estes Marcos englobam diversos temas, como o governo digital, a incorporação de tecnologias digitais na educação e no desenvolvimento de aplicativos que melhorem o serviço de saúde, entre vários outros.

Além disso, os países estão definindo novos campos de ação e impulsionando diferentes iniciativas, como a atualização de políticas públicas e projetos na área de telecomunicações. A Colômbia tem um novo Marco do setor. O Equador está construindo uma nova agenda digital. E há novos regulamentos para setores de serviços emergentes, vinculados às tecnologias digitais, caso do México, que criou a Lei de Fintech.

Quais são os projetos de digitalização que se destacam?

Rovira: A região possui vários casos de sucesso de uso da tecnologia em áreas como saúde e educação. Um exemplo é o aplicativo Misalud, no México, que permite prover serviços públicos de saúde através do celular. Outra iniciativa, também no México, é o programa @prende.mx, dedicado em promover a alfabetização e a incorporação das tecnologias digitais nos diferentes processos de aprendizado. Este processo permite que alunos do ensino fundamental em escolas públicas contem com um repertório digital de recursos educativos, aplicativos e programas que servem de apoio aos estudos.

O Uruguai é um país líder no uso de tecnologias digitais. A Agenda Uruguai Digital 2020 prevê a transferência de 100% dos serviços de governo para o ambiente digital até 2020. Na área de educação, o país criou, em 2007, o Plano Ceibal, um instrumento de inclusão e igualdade de oportunidades, que tem o objetivo de apoiar as políticas públicas de educação com tecnologia.

A Colômbia, através do Ministério da Tecnologia de Informação e as Comunicações, também é outro país que avançou de forma importante. No que diz respeito à economia digital, o programa MiPyme Vive Digital buscam aperfeiçoar o acesso, o uso e a apropriação da internet para aplicar recursos de TIC nos seus negócios. Desde a sua criação, em 2015, este programa conseguiu empregar cerca de 200.000 pessoas usando tecnologias digitais. Já na educação, pode-se destacar o programa de Computadores Para Educar, que tem o objetivo de gerar igualdade através das TICs, fomentando a qualidade da educação sob um modelo sustentável.

Quais países podem ser considerados referência na digitalização? Por que?

Rovira: A digitalização é um processo transversal e multidimensional, portanto não é tão simples definir um critério único para expressar o êxito de um país em relação a outro. No entanto, com relação à conectividade, considerando os serviços de internet e o acesso à banda larga, Argentina, Chile, Costa Rica e Uruguai se destacam pela qualidade e a penetração dos serviços. São estes os países com maiores taxas de penetração na América Latina quando se fala em usuários de internet, com faixas que vão de 60% a 70%. Por outro lado, também pode-se afirmar que o acesso à internet nesses países é mais inclusivo e igualitário, considerando o nível socioeconômico e a localização geográfica (urbana ou rural).

Em termos de governo digital, o Uruguai é claramente o país que mais se destaca. De acordo com o índice de governo eletrônico, desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU) de 2018, o Uruguai se tornou o primeiro país da América Latina e do Caribe a ter uma pontuação muito alta no índice, seguido de perto pelo Chile e pela Argentina. Este indicador analisa a capacidade do país de fornecer serviços públicos online, além de analisar o capital humano e a infraestrutura. Da mesma forma, Uruguai e México são os únicos países da região que fazem parte do G9, uma rede global de colaboração em governo digital, composta por líderes internacionais nessa área, como Canadá, Estônia, Israel, Nova Zelândia, Portugal, Coréia e Reino Unido. Esta rede visa compartilhar práticas digitais de classe mundial, colaborar para resolver problemas comuns, identificar melhorias em serviços e apoiar a economia digital.

Pensando na Indústria 4.0, as economias da região estão preparadas para competir no cenário global?

Rovira: Há vários aspectos que devem ser melhorados para alcançar os níveis de competitividade exigidos pela economia digital. Ainda existem lacunas significativas no acesso, qualidade e acessibilidade dos serviços de telecomunicações, com regiões mais avançadas.

Além disso, há também um atraso na adoção de tecnologias mais avançadas, como sensores remotos e Inteligência Artificial, que são fundamentais para o desenvolvimento da Indústria 4.0. Em 2018, o índice de IoT (internet das coisas), desenvolvido pelo Centro de Estudos de Telecomunicações (Cet.la), indica lacunas significativas na América Latina, no Caribe e nos países da OCDE. Esse índice incorpora áreas como infraestrutura de TIC, habilidades, regulamentação, adoção de tecnologias nas empresas, situação política e econômica e capacidade de inovar. As maiores diferenças estão nos aspectos político e econômico e na adoção de tecnologia nas empresas. Esses resultados também coincidem com outros índices em que observamos que as maiores lacunas em relação aos países mais avançados são encontradas nos fatores de produção (capital humano e inovação), digitalização da produção e conectividade.

Estudos mostram que a aplicação intensiva de inteligência artificial em processos produtivos reduzirá empregos. Como a América Latina ainda é uma região em desenvolvimento, qual deve ser o impacto na geração e manutenção de postos de trabalho?

Rovira: Uma das áreas que analisamos recentemente é o futuro do trabalho e da automação. Em geral, os estudos mostram que esses processos e o uso intensivo de novas tecnologias afetarão o emprego. Em uma análise que realizamos em cinco países (El Salvador, Uruguai, Chile, Equador e México), observou-se que 34% das ocupações têm alta probabilidade (mais de 80%) de serem afetadas pelos processos de automação. No entanto, ainda não é possível concluir se o efeito líquido desse impacto será positivo ou negativo, o que certamente dependerá de muitas outras variáveis, como disponibilidade tecnológica, habilidades e os custos de mão-de-obra, regulamentação e velocidade das redes, além da difusão tecnológica.

Além disso, embora os resultados mostrem que algumas tarefas serão automatizadas, isso não implica necessariamente o desaparecimento do emprego, uma vez que pelo menos três efeitos existirão. O primeiro tem a ver com a transformação da atividade, o que pode exigir novas habilidades dos trabalhadores e não necessariamente resultará na eliminação do trabalho.

Por outro lado, novos empregos associados a novas atividades serão criados, e um maior dinamismo econômico será gerado pelo aumento da produtividade. Finalmente, haverá a eliminação de alguns trabalhos, especialmente aqueles associados a tarefas manuais e de rotina. Também é importante ressaltar que esse processo não será linear e, de acordo com nossas estimativas, pode levar vários anos, o que permitirá reestruturar as habilidades e adotar algumas medidas de política para mitigar os efeitos negativos dessa mudança.

Qual é o papel da educação no processo de transformação digital e o que pode ser feito?

Rovira: A educação é fundamental. Um dos resultados dos nossos estudos mostra que quanto maior o nível de escolaridade, menor a probabilidade de perda de emprego decorrente da automação. Além disso, o treinamento da força de trabalho e o desenvolvimento de habilidades digitais reduzirão os efeitos negativos da digitalização nos processos de produção.

Por outro lado, o capital humano é um dos grandes desafios da região. As lacunas entre a oferta e a demanda de habilidades digitais são evidentes, assim como os problemas estruturais. Ter uma força de trabalho qualificada, que inclua trabalhadores com pelo menos alguma experiência terciária é um fator-chave para promover o desenvolvimento econômico e social sustentável na região. No entanto, de acordo com um estudo realizado pela CEPAL, em 2017, juntamente com a CAF e a OCDE, mais de 70% dos jovens não são qualificados o suficiente para ter acesso a empregos de boa qualidade.

De que forma as indústrias de TI e de Telecomunicação podem contribuir para a evolução digital nos países latino-americanos?

Rovira: As indústrias de TI e de Telecomunicações são alguns dos motores para a inovação tecnológica-digital, além de serem os provedores da base tecnológica necessária para o desenvolvimento da economia digital. Nesse sentido, é fundamental que estas indústrias trabalhem conjuntamente com os governos para expandir a infraestrutura e os serviços digitais. Os tomadores de decisão e os reguladores devem fomentar esta relação com o setor privado e trabalhar em estreita colaboração com diferentes atores para encontrar enfoques que respondam às necessidades do mercado, proporcionando maiores benefícios aos consumidores. Entrevista originalmente concedida e publicada na revista Cisco Live Magazine, de produção da Comunicação Interativa Editora

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