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A governança de dados como pilar de sustentabilidade no Brasil

*Por Ivana Braga

O cenário digital brasileiro atravessa um momento de profunda transformação. Se, por um lado, o avanço de ferramentas de monitoramento, automação e Inteligência Artificial (IA) promete níveis inéditos de eficiência, por outro, coloca as organizações diante de um dilema ético e regulatório sem precedentes. O desafio atual das empresas não se resume mais ao cumprimento formal da LGPD, mas sim em como equilibrar inovação acelerada com o respeito  à privacidade.

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O Novo Perímetro: Onde Estão os Seus Dados?

A era do “ambiente corporativo controlado” ficou no passado. A consolidação do trabalho híbrido e a dependência de ecossistemas de terceiros expandiram a superfície de risco. Hoje, os dados circulam por múltiplas redes e parceiros, exigindo que a governança seja dinâmica. A gestão de compliance precisa ser repensada: não basta ter políticas internas se elas não alcançam todo o ecossistema. É fundamental ter clareza de que a responsabilidade é compartilhada na execução, mas nunca transferida: a empresa controladora continua sendo a guardiã da confiança e a responsável final pelos dados que utiliza.

Fortalecimento Institucional: A ANPD como Agência Reguladora

A maturidade prática das empresas brasileiras está sendo testada por um novo vigor institucional. O debate sobre a transformação definitiva da ANPD em uma agência reguladora autônoma sinaliza uma mudança de patamar: com maior independência e poder de fiscalização, o órgão deixa de ser um observador para se tornar um regulador ativo, comparável ao papel de agências consolidadas como a Anatel.

Esse fortalecimento reflete-se na publicação do Mapa de Temas Prioritários para o biênio 2026-2027 e na atualização da Agenda Regulatória 2025-2026. O foco está agora em eixos críticos como biometria, segurança cibernética e a regulamentação de direitos dos titulares. Além disso, a adequação ao ECA Digital (Lei 15.211/2025) impõe regras rigorosas de transparência e proteção de dados para serviços acessíveis por crianças, exigindo mecanismos de aferição de idade e privacidade por padrão. Para o setor corporativo, o recado é claro: a conformidade deixou de ser uma “melhor prática” para se tornar um requisito de sobrevivência operacional.

IA Agêntica e a Fronteira da Transparência

A fronteira tecnológica se move agora em direção à IA agêntica — sistemas capazes de tomar decisões e agir de forma autônoma. Essa evolução traz riscos que extrapolam a cibersegurança tradicional, como a opacidade algorítmica e vieses automatizados. O uso ético dessas tecnologias exige uma governança sólida, que priorize a “explicabilidade” e mantenha a supervisão humana.

A transparência torna-se o único caminho para evitar o desgaste da confiança e questionamentos legais, especialmente em um contexto onde a ANPD já detalha obrigações específicas para o tratamento automatizado. O reconhecimento internacional do Brasil como um país com nível adequado de proteção de dados facilita o fluxo transnacional, mas exige que as empresas mantenham padrões de governança plenamente alinhados aos níveis globais.

Privacidade como Ativo Estratégico

A maturidade digital plena só é alcançada quando as empresas param de enxergar a segurança e a privacidade como centros de custo. Incidentes de segurança e falhas de governança têm impacto direto e imediato na experiência do cliente, na retenção de talentos,  no valor da marca e, consequentemente, na saúde financeira das companhias.

Quando a liderança compreende que a proteção de dados é um componente vital da sustentabilidade, ela passa a ser tratada como um ativo estratégico e uma vantagem competitiva. Empresas que antecipam as tendências regulatórias não apenas evitam multas de uma agência cada vez mais forte, mas constroem uma reputação de solidez e ética. Transformar privacidade em valor é, acima de tudo, uma escolha de gestão consciente para garantir a longevidade no mercado. *Ivana Braga é DPO and Compliance Officer na DXC Brasil.

Este artigo é de total responsabilidade do autor, não representando, necessariamente, a opinião do Portal IPNews.

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