Análise Setorial

Além da zona de conforto do Branding

Recentemente, foi anunciada a fusão da LAN Chile com a TAM. Como deverá ser trabalhado o branding da nova marca?

Assistimos recentemente duas fusões de companhias aéreas. Nos EUA, o “merger” da United com a Continental. Aqui, anuncia-se a fusão da LAN Chile com a TAM.

A primeira vai se identificar pelo nome UNITED, com a identidade visual da antiga Continental: manterá o tipo gráfico do logotipo e o símbolo, um globo estilizado, criado pela Lippincott. Trata-se de estratégia do tipo “win-win”, mantendo-se o passado vivo na futura marca. No segundo caso, criou-se um nome da marca – LATAM – que, por ser a sigla de LATin  AMérica, já uma boa sacada mas que nasceu de domínio público. Não poderá ser registrada e protegida como marca nominativa pelo Direito de Propriedade Intelectual, por ser “gasta”, como dizem os advogados. Qualquer um, em qualquer setor, poderá usar a marca LATAM. Esta não-exclusividade muito desvalorizará a marca, com prejuízo para os proprietários e lucros para os concorrentes.  A originalidade da Marca, essencial para o registro, poderá ser obtida através de um design exclusivo e diferenciado.

A situação é menos grave quando se considera que LATAM se restringirá à  holding, pelo que se anunciou. Não deve ser criada uma terceira marca. Os aviões e todas suas expressões permanecerão como se não houvesse fusão alguma: sempre LAN ou TAM, com os mesmos posicionamentos.

Aí, pergunto: por que a opção do branding super-conservador costuma ser vencedora nestas ocasiões? Por que as decisões de Branding tendem a limitar-se às soluções tradicionais? Exceto nos casos de sucesso de marcas-líderes, raramente ocorrem soluções inovadoras, aquelas capazes de surpreender o mercado e trazer benefícios significativos. O Branding não teria que ousar mais? Será que esta decisão de não criar uma nova marca ou de não assumir riscos é a mais vantajosa, a longo prazo?

A experiência passada mostra que as marcas antigas podem conviver em um primeiro momento, mas, não se mantém vivas, a longo prazo. A racionalidade dos negócios e a força do mercado, em curto tempo, concentram-se em uma e somente uma marca. É a Lei de Darwin: no mercado, sobrevive a marca mais eficaz – mais visível e mais atrativa, sem exceções. Dois exemplos recentes: Itaú+Unibanco e Banco Real+Santander. Depois de breve convivência, prevaleceu a racionalidade dos negócios e a lei do mais forte entrou em ação. Apenas Itaú e Santander permanecem como marcas soberanas. Marca é negócio, não é sentimentalismo.

Se esse destino é inevitável, porque desperdiçar recursos em uma marca condenada? Insistir na marca mais fraca é desperdício. A resposta lógica é, portanto: desde o início, vamos eleger uma única marca-meta.

Este imperativo, no caso LAN+TAM, pode esbarrar nas resistências internas.  Se escolhermos uma das duas marcas, aquela que sobreviver enfrentará a reação natural dos stakeholders internos, desequilibrando o clima organizacional, sempre hiper-sensível nos momentos de fusão. Para estes públicos, parece mais recomendável assumir uma nova marca. O culto ao passado seria preservado, como mito histórico, e a nova cultura poderia constituir-se a partir de novos símbolos.

Para os públicos externos, o ato de projetar algo novo tem sempre recepção positiva. Com baixo investimento, a efetivar-se ao longo de um a dois anos, a mudança para uma nova marca é fácil. Em troca, deverá trazer maior visibilidade, posicionamento mais eficaz, apagar os brand equity negativos e, principalmente, dinamizar a marca como potência, como “visão de futuro”.

Neste caso, parece-me que uma nova Marca, com M maiúsculo, reuniria os atributos mais positivos das  marcas originais. Se o Branding for eficaz, integrará os “brand equity” do passado em uma nova resultante e renovará a reputação da empresa. A nova marca, se eficaz, será reconhecida como uma debutante, como esperança. A marca nascerá nova, mas com a retaguarda de décadas de experiência – fator essencial entre companhias aéreas.

Considerando que a imagem das aéreas precisa de uma injeção de “animus” para se re-qualificarem, depois de tanta mídia negativa, será que a renovação do branding da LAN e da TAM não seria uma alternativa vencedora? Não só vencedora, seria necessária.

*Marco A. A. Rezende é Diretor de Branding e Novos Negócios da Cauduro Associados. André B. Alves, também da Cauduro, colaborou na autoria deste artigo.

 

 

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