Carreira

Brasscom alerta para avanço da pejotização no mercado de TIC

O mercado brasileiro de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) encerrou 2025 com 3.238.011 profissionais, frente aos 3.165.038 registrados em 2024. O crescimento de 2,3%, equivalente a cerca de 73 mil novos trabalhadores, confirma a expansão do setor, mas também revela uma mudança significativa nas relações de trabalho, segundo levantamento da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação).

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Os dados mostram que 57% do aumento da força de trabalho em 2025 ocorreu entre microempreendedores individuais (MEIs) e trabalhadores informais. Em 2024, o cenário era diferente: 71,9% do crescimento havia sido registrado por meio de contratações sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A mudança é reforçada pelo crescimento do número de MEIs, que passou de 489.155 em 2024 para 528.858 em 2025, alta de 8,1%, percentual superior ao crescimento da base total de profissionais do setor. Já o contingente de trabalhadores informais passou de 581.610 para 583.551 pessoas, avanço de 0,3%.

Para Affonso Nina, presidente-executivo da Brasscom, o movimento reflete uma mudança estrutural na forma de contratação do setor e tende a ganhar força com o fim gradual da desoneração da folha de pagamentos e a implementação da reforma tributária.

Segundo o executivo, a redução da desoneração aumenta o custo da contratação de profissionais via CLT. Ao mesmo tempo, a reforma tributária cria um incentivo econômico para a contratação de prestadores de serviços como pessoas jurídicas, já que empresas poderão aproveitar créditos tributários das notas fiscais emitidas por esses profissionais, benefício que não existe na contratação pela folha de pagamento.

“O que vemos claramente é que mais e mais das novas posições abertas estão indo para a pejotização”, afirma Nina. Ele destaca ainda que a tendência exige uma discussão sobre o equilíbrio das relações de trabalho, uma vez que os incentivos tributários podem acelerar a migração de contratações formais para modelos baseados em pessoas jurídicas.

Apesar da mudança no perfil das contratações, a remuneração do setor continua acima da média brasileira. De acordo com a Brasscom, os salários de TIC mantiveram crescimento superior ao da média nacional em 2025, com destaque para o segmento de software, cuja remuneração média alcança cerca de 2,9 vezes a média do país. Os segmentos de serviços e indústria também registraram evolução salarial acima da economia como um todo.

Diversidade ainda avança em ritmo lento

Outro desafio apontado pelo setor é a diversidade da força de trabalho. A Brasscom destaca que, embora a participação de mulheres e de profissionais negros venha aumentando ao longo dos anos, a evolução ainda ocorre em ritmo inferior ao considerado necessário.

Hoje, as mulheres representam cerca de 39% dos profissionais de TIC. Segundo Affonso Nina, a participação feminina entre os novos ingressantes é maior do que nas gerações anteriores, indicando uma tendência de crescimento gradual dessa presença nos próximos anos. Ainda assim, o executivo reconhece que o avanço “não ocorre na velocidade que poderia ou deveria”.

O desafio torna-se ainda mais evidente nas áreas de Inteligência Artificial. Segundo estudos internacionais citados pela Axis Communications, apenas 22% da força de trabalho dedicada ao desenvolvimento de IA é composta por mulheres, cenário que limita a diversidade de perspectivas na criação de tecnologias que terão impacto crescente sobre áreas estratégicas, como segurança física e cibernética.

Para Mariana Ramírez, responsável pelo Marketing para a América Latina da Axis Communications, a evolução tecnológica exige equipes cada vez mais multidisciplinares.

“A segurança do futuro dependerá da combinação entre tecnologia, dados e pessoas. Contar com equipes multidisciplinares e com uma maior diversidade de perspectivas permitirá desenvolver estratégias mais eficazes para antecipar riscos e proteger as organizações”, afirma.

A questão ganha importância em um momento em que a Inteligência Artificial, a automação, a análise de vídeo e o tratamento de grandes volumes de dados se tornam ferramentas essenciais para prevenção de riscos e proteção de infraestruturas críticas, aumentando a demanda por profissionais qualificados em tecnologia.

Além da transformação das relações de trabalho, o setor continua enfrentando escassez de mão de obra especializada. Como mostrou o IPNews em reportagem recente, o déficit de profissionais de tecnologia no Brasil poderá chegar a 1 milhão até 2030, reforçando a necessidade de ampliar a formação de talentos e tornar o setor mais diverso e atrativo para atender à crescente demanda por competências digitais.

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