O Brasil recebeu um carregamento de 3.170 quilômetros de cabos de fibra óptica provenientes da China para viabilizar a implantação de novas infovias subfluviais na região amazônica. A operação, considerada a maior já realizada no programa Norte Conectado, promete ampliar o acesso à internet de alta velocidade em municípios remotos da região Norte, mas também reacende um debate sensível sobre a dependência de insumos estrangeiros em um momento de defesa da indústria nacional.
CONTEÚDO – Custo da fibra óptica deve subir até 170% após tarifas antidumping, estima Feninfra
Coordenada pelo Ministério das Comunicações em parceria com a Entidade Administradora de Faixa (EAF), a logística envolve cerca de cinco mil toneladas de cabos, que serão transferidos para embarcações nacionais ao longo de um período estimado de 30 dias. O lançamento da infraestrutura nos leitos dos rios amazônicos está previsto para começar em maio, com foco na implantação das infovias 05, 06 e 08 do Norte Conectado.
O projeto é apresentado pelo governo como um marco de inclusão digital e desenvolvimento regional. Segundo o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, a iniciativa vai além da infraestrutura ao conectar escolas, unidades de saúde, órgãos públicos e comunidades historicamente isoladas, levando oportunidades à população amazônica por meio da conectividade.
Cada cabo conta com 24 pares de fibra óptica e capacidade de transmissão de até 96 terabytes por segundo, permitindo oferta de internet de alta velocidade mesmo em áreas de difícil acesso. A tecnologia subfluvial, adotada pelo programa, dispensa grandes obras terrestres e reduz impactos ambientais, evitando o desmatamento de áreas sensíveis da floresta.
No entanto, a origem chinesa dos cabos evidencia uma contradição relevante no cenário atual do setor. Recentemente, entidades da indústria e de infraestrutura alertaram para a possibilidade de aumento de até 170% no custo da fibra óptica no Brasil, em razão da adoção de tarifas antidumping contra produtos importados, especialmente da China. O argumento central é a necessidade de proteger a produção nacional e reduzir a dependência externa em um insumo estratégico para a transformação digital do país.
A chegada de uma das maiores remessas de fibra óptica importada já registradas, justamente da China, ocorre enquanto o setor debate medidas de defesa comercial e políticas de estímulo à indústria local. Na prática, o movimento revela a dificuldade do país em conciliar a urgência da expansão da conectividade – especialmente em regiões como a Amazônia – com uma estratégia industrial consistente para o fortalecimento da cadeia produtiva nacional de telecomunicações.
Para a CEO da EAF, Gina Marques, o Norte Conectado traduz uma política pública voltada à conectividade significativa, com infraestrutura pensada para durar, respeitar o meio ambiente e superar barreiras geográficas históricas. A proposta, segundo ela, transforma tecnologia em cidadania ao levar internet de qualidade a populações que sempre estiveram à margem do acesso digital.
Com investimento estimado em R$ 1,3 bilhão, o Norte Conectado tem potencial para beneficiar cerca de 7,5 milhões de pessoas em aproximadamente 70 municípios dos estados do Amazonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e Pará. O modelo subfluvial adotado pelo programa contribui para a preservação ambiental, com a estimativa de evitar o desmatamento equivalente a mais de 50 milhões de árvores.
Ainda assim, o avanço da conectividade amazônica apoiado em cabos importados reforça um dilema estratégico: enquanto o país acelera a inclusão digital em regiões críticas, permanece dependente de fornecedores estrangeiros em um mercado considerado essencial para a soberania digital e para o futuro da infraestrutura de telecomunicações no Brasil.
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