*Por Mauricio Frizzarin
Os últimos dois anos foram marcados pela popularização da Inteligência Artificial generativa. Pela primeira vez, milhões de profissionais passaram a utilizar uma tecnologia capaz de responder perguntas, produzir textos, resumir documentos e analisar informações em poucos segundos. Foi uma transformação importante, mas acredito que representou apenas o primeiro capítulo de uma mudança muito maior. Agora, estamos deixando para trás a era da Inteligência Artificial que responde para entrar na era da Inteligência Artificial que executa.
Há dois anos, pedíamos à Inteligência Artificial para escrever um email. Hoje, pedimos a ela para conciliar contas, cobrar um fornecedor, avisar sobre uma certidão vencendo e preparar um relatório para a reunião das 15h. A diferença entre esses dois pedidos não é apenas técnica. Parece sutil, mas representa uma das maiores transformações na administração das empresas desde a popularização dos sistemas de gestão.
Enquanto a IA generativa depende de um comando humano para produzir uma resposta, os Agentes de IA recebem objetivos, interpretam o contexto, interagem com sistemas, executam tarefas e acompanham processos de forma contínua, sempre dentro de regras definidas e sob supervisão humana. Assim, deixamos de falar apenas de inteligência capaz de produzir conhecimento para falar de inteligência capaz de realizar parte do trabalho.
Avalio que essa evolução acontece em um momento decisivo. Segundo o Microsoft Work Trend Index 2025, baseado em entrevistas com mais de 31 mil profissionais de 31 países, 82% dos líderes afirmam que precisarão repensar profundamente sua estratégia operacional neste ano, enquanto o mesmo percentual pretende incorporar Agentes de IA para ampliar a capacidade de suas equipes. O estudo identifica o surgimento das chamadas ‘Frontier Firms’, empresas que estruturam suas operações com equipes híbridas formadas por pessoas e agentes inteligentes trabalhando de forma integrada.
O motivo é simples: o maior problema das empresas hoje não é a falta de informação, mas a falta de tempo. Profissionais altamente qualificados continuam dedicando boa parte da jornada a tarefas administrativas, conferências, atualizações de sistemas, elaboração de relatórios e acompanhamento de processos. São atividades essenciais, mas que pouco aproveitam sua capacidade analítica e estratégica.
É justamente aí que os Agentes de IA representam uma ruptura. Diferentemente da IA generativa, que responde a perguntas, eles executam processos completos. Podem realizar conciliações bancárias, monitorar indicadores, acompanhar mudanças regulatórias, organizar documentos, cobrar informações, qualificar oportunidades comerciais e apoiar diversas rotinas administrativas de forma contínua e integrada.
A McKinsey define esse cenário como o surgimento das chamadas “organizações agênticas”, nas quais pessoas e agentes inteligentes trabalham lado a lado para redesenhar processos inteiros e elevar significativamente os níveis de produtividade. Mais do que automatizar tarefas isoladas, trata-se de reorganizar a forma como o trabalho acontece dentro das empresas.
Para as pequenas e médias empresas, essa transformação pode ser ainda mais significativa. Durante décadas, crescer significava contratar mais pessoas para absorver o aumento da operação. Agora, torna-se possível ampliar a capacidade operacional sem expandir a estrutura na mesma proporção. Colaboradores digitais passam a assumir atividades repetitivas, enquanto as equipes humanas concentram seus esforços em análise, inovação, relacionamento com clientes e tomada de decisão. Ou seja, chegarão a um nível de eficiência que antes era praticamente exclusivo das grandes corporações.
Naturalmente, essa evolução exige responsabilidade. Governança, qualidade dos dados, segurança da informação e supervisão humana tornam-se ainda mais relevantes. A IA não elimina a liderança. Ao contrário, aumenta sua importância, afinal, estratégia, julgamento, criatividade, ética e relacionamento continuam sendo competências essencialmente humanas.
O fato é que durante muito tempo discutimos se a Inteligência Artificial substituiria pessoas. Hoje, a pergunta mais importante é: como as pessoas trabalharão quando deixarem de gastar boa parte do dia com tarefas que nunca exigiram seu verdadeiro potencial? Acredito, que a partir disso, estaremos diante de um novo modelo de gestão. Nos próximos anos, empresas serão reconhecidas não apenas pelos produtos que oferecem, mas pela capacidade de combinar inteligência humana e agentes inteligentes em equipes híbridas, nas quais pessoas lideram, inovam e decidem, enquanto a tecnologia executa uma parcela crescente da operação.
Dessa forma, avalio que a próxima revolução não acontecerá quando as máquinas responderem melhor às nossas perguntas, mas quando devolverem aos empresários aquilo que sempre faltou dentro das empresas: tempo para pensar, criar, decidir, liderar e crescer. *Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON.
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