O Aeroporto de Heathrow, em Londres, enfrentou sérios transtornos devido a um ataque cibernético no dia 19 de setembro. Através de um ransomware direcionado ao sistema de check-in e embarque da Collins Aerospace, conhecido como vMUSE, a paralisação resultou em longas filas, atrasos e cerca de 20 voos cancelados.
CONTEÚDO RELACIONADO: Cibercriminosos exploram a Conferência COP30 em novos golpes de phishing
O acontecido mostra como os efeitos de um ataque podem se agravar rapidamente. Quando os sistemas são invadidos, empresas de carga precisam encontrar soluções urgentes: mudar o destino de embarques, contratar serviços extras de depósito e até alugar aviões adicionais para cumprir acordos. Jackson Campos, especialista em comércio exterior, explica que isso resulta em um aumento de custos que não afeta apenas as companhias aéreas.
“Os custos não se limitam às empresas aéreas. Eles se espalham por toda a cadeia logística, afetando transportadoras, operadores e fornecedores, que muitas vezes precisam arcar com despesas emergenciais como depósito extra, aluguel de aviões e mudança de rota de cargas. No final, o consumidor paga mais caro pelo produto importado ou exportado”, afirma Jackson.
No transporte marítimo, principal meio logístico do comércio internacional, os prejuízos são ainda maiores. Os portos são elementos cruciais de um sistema global muito interligado e a paralisação de um terminal por apenas um dia pode reter milhares de contêineres. Esse acúmulo gera cobranças adicionais de demurrage, detention e depósito, além de taxas extras impostas pelas empresas de navegação.
Um exemplo marcante ocorreu na África do Sul, em 2021, quando um ataque de ransomware paralisou as operações da Transnet. Durban, o maior porto de contêineres do continente e responsável por mais de 60% do tráfego marítimo do país, ficou praticamente inoperante por vários dias, prejudicando as exportações de commodities e as importações essenciais. Estimativas do setor indicaram perdas de cerca de 300 milhões de dólares em menos de uma semana, considerando custos diretos e indiretos.
“Além do impacto financeiro imediato, navios foram desviados, cargas perecíveis se perderam e os problemas logísticos duraram meses, com aumento de até 20% nos custos de embarques específicos. Atualmente, com cadeias mais tensionadas e prazos mais apertados, qualquer incidente tende a ter efeitos ainda mais graves”, avalia o especialista em comex.
Objetivo dos cibercriminosos vai além do prejuízo
O objetivo dos ataques, porém, não é apenas causar atrasos, é atingir o coração da operação. De acordo com Wanderson Castilho, perito internacional em segurança cibernética, os hackers buscam dados sensíveis e informações privilegiadas sobre o funcionamento das companhias.
“Os principais alvos desses criminosos são os dados dos passageiros, reservas, pagamentos, sistemas operacionais — como check-in, displays de voo, etiquetas, comunicação via rádio — e a segurança da infraestrutura crítica. Isso compromete não apenas a privacidade das informações, mas também a continuidade das operações e a confiança dos usuários no setor aéreo”, afirma Castilho.
Castilho explica que o ransomware é mais utilizado pela sua praticidade e anonimato, dificultando encontrar quem realizou o ataque. “O ransomware acaba sendo usado por ser o mais eficiente, mais barato e que causa menos riscos dos criminosos serem pegos. Os riscos à integridade física é o maior dano para a população”, analisa Castilho.
A falta de investimentos em segurança digital em portos e aeroportos é um ponto de atenção na infraestrutura logística e de transporte. Enquanto o volume de dados e transações cresce de forma exponencial, muitas dessas estruturas ainda operam com sistemas defasados, sem integração entre áreas críticas e com baixa capacidade de resposta a incidentes cibernéticos.
“Estes grandes pontos de tráfego de dados ainda sofrem com a falta de sistemas robustos de segurança cibernética. Também é necessário realizar constantes serviços de treinamentos e tentativas de simulações de ataques por hackers éticos profissionais, verificando a integridade e vulnerabilidade do sistema, corrigindo pontos essenciais e mantendo a segurança de passageiros e empresas”, conclui Castilho.
Participe das comunidades IPNews no Instagram, Facebook, LinkedIn e X (Twitter).

