*Por Aline Bucelli Ferreira
A forma como as empresas investem em qualidade de software está mudando, e os dados deixam isso evidente. Segundo o World Quality Report 2025-26, 43% das organizações já experimentam inteligência artificial generativa em engenharia de qualidade, mas apenas 15% conseguem escalar seu uso. As principais barreiras apontadas pelas empresas são os riscos relacionados à privacidade de dados, citados por 67% das organizações, a complexidade de integração, mencionada por 64%, e a falta de qualificação das equipes, destacada por 50% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, estudos do DevOps Research and Assessment (DORA), programa de pesquisa do Google Cloud voltado ao desempenho de equipes de engenharia de software, mostram que métricas de entrega e estabilidade seguem como fortes preditores de performance organizacional. Isso reforça que qualidade não é apenas uma questão técnica, mas um fator diretamente ligado aos resultados do negócio.
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Tal movimento revela uma mudança estrutural. O mercado passa a tratar qualidade cada vez menos como uma etapa isolada de testes e cada vez mais como parte da estratégia de engenharia, confiabilidade e experiência digital. A discussão muda do volume de testes para o impacto real no negócio. Em outras palavras, não basta testar mais, é preciso testar melhor, com base em dados que conectem tecnologia e resultado.
Para isso, a medição de qualidade precisa evoluir. Indicadores isolados já não refletem a complexidade das operações digitais. É necessário combinar métricas de entrega, estabilidade, experiência do usuário, eficiência operacional e risco. Entram na análise indicadores como change failure rate, tempo de recuperação, lead time para mudanças, frequência de deploy, retrabalho, volume de defeitos por criticidade, reincidência de falhas, cobertura de testes em jornadas críticas, taxa de automação útil e incidentes em produção. Quando analisados de forma integrada, esses dados oferecem uma visão mais estratégica da operação.
No nível executivo, essa leitura ganha força quando organizada em três camadas. A primeira é a saúde operacional, que inclui falhas na produção, disponibilidade e impacto de incidentes. A segunda é a eficiência do fluxo, com foco em lead time, throughput, retrabalho e produtividade da automação. A terceira conecta qualidade ao resultado de negócio, relacionando falhas com abandono de jornada, conversão, chamados, perda de receita e aumento de custo de suporte. É nesse ponto que a qualidade deixa de ser vista como centro de custo e passa a ser entendida como mecanismo de proteção de receita e margem.
Apesar desse avanço, muitas empresas enfrentam um problema recorrente. Os dados existem, mas estão fragmentados. Desenvolvimento mede entrega, QA mede defeitos, operação mede incidentes e o negócio mede resultado. Sem integração, não há visão de causa raiz, apenas leitura de sintomas. Isso leva a decisões baseadas em percepção, foco em métricas de esforço em vez de impacto e ausência de priorização por criticidade. O resultado é um ciclo reativo, em que se corrige tarde e se investe de forma ineficiente.
A virada ocorre quando esses dados passam a ser correlacionados. Ao conectar informações de desenvolvimento, produção e operação, a empresa consegue responder perguntas que realmente importam. Qual mudança gerou aumento de erro e queda de conversão. Que tipo de falha está elevando o volume de chamados e o custo operacional. Onde o retrabalho está consumindo margem sem gerar valor. A partir das respostas, qualidade deixa de ser um indicador técnico e passa a ser traduzida em números de negócio, como receita protegida, custo evitado e eficiência operacional.
Trata-se de uma abordagem que muda completamente a lógica de investimento. Sai o modelo baseado em aumento genérico de testes e entra uma estratégia orientada a risco e impacto. Com dados integrados, é possível priorizar automação nas jornadas mais críticas, identificar rapidamente onde investir ou reduzir esforços e antecipar falhas com base em padrões históricos. A tomada de decisão se torna mais rápida, mais precisa e menos dependente de suposições.
Na prática, os resultados surgem de forma concreta. Empresas conseguem identificar quando uma nova versão impacta negativamente uma jornada crítica, como pagamento ou login, e agir rapidamente para evitar perda de receita. Ao cruzar dados de produção com atendimento, descobrem quais falhas geram maior volume de chamados e reduzem custos ao corrigir problemas estruturais. Também passam a direcionar investimentos em automação para áreas de maior risco, evitando desperdício de esforço e aumentando o retorno. Além disso, a análise histórica permite identificar padrões de falha e atuar de forma preventiva, reduzindo incidentes antes que afetem o cliente.
O ponto central é que o valor não está em coletar dados, mas em conectá-los para explicar o porquê dos problemas. Quando isso acontece, a qualidade deixa de ser uma função operacional e passa a atuar como inteligência de decisão. O impacto é direto, com menos prejuízo, menos desperdício e investimentos muito mais assertivos em um ambiente em que eficiência e velocidade são determinantes para o resultado do negócio. *Aline Bucelli Ferreira é gerente de Pré-vendas e Ofertas da Prime Control.
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