Análise Setorial

Crise altera relações entre empresas e fornecedores

Ataíde Braga, do ILOS

Ataíde Braga, do ILOS

Relação com os fornecedores, desenvolvimento de RH e investimento em tecnologia são os maiores índices de insatisfação da cadeia de suprimentos, segundo pesquisa da ILOS.

A crise econômica incentivou uma mudança de comportamento nas relações entre as grandes empresas brasileiras e seus fornecedores. De acordo com estudo da ILOS (Instituto de Logística & Supply Chain), a formação de parcerias entre ambas as partes está reduzindo os efeitos da retração na atividade econômica.

“A área de suprimentos é de extrema importância para a operação estratégica das empresas. Para se ter idéia, cerca de 60% dos gastos com a produção está nas mãos das áreas de compras”, explica Ataíde Braga, professor e pesquisador do Instituto. Isto porque cabe ao profissional de compras buscar alternativas de redução de custos em um ambiente de redução de demanda.

Segundo o especialista, a área ainda não tem o destaque merecido, e sofre com a falta de dados sobre o setor, cursos e publicações específicas, fato este que gerou não só a criação do Instituto, mas também a realização da pesquisa e do primeiro Fórum Internacional de Compras & Suprimentos, evento que reuniu em São Paulo empresas como Vale, Embraer, Natura, Perdigão, Johnson &  Johnson, entre outras, que apresentaram aos presentes os cases de suas cadeias de suprimentos.

Embora as brasileiros estejam no mesmo patamar que os países desenvolvidos quando falamos em suprimento, o setor como um todo ainda não está plenamente desenvolvido, e “existe um amplo caminho a ser percorrido na área”, diz Maria Fernanda Hijjar, diretora de Inteligência de Mercado do ILOS, destacando a importância do evento.

De acordo com a pesquisa do Instituto, a média de redução de preços (savings) obtidos pelas empresas, em 2008, foi de 6,1%. O maior índice de redução foi conquistado pelo setor farmacêutico, que teve reduções de custo de até 10,7%. “Este ganho foi obtido porque o setor tem trabalhado arduamente para manter um relacionamento de qualidade com o fornecedor, devido a importância dos insumos que a área necessita”, explica Maria Fernanda.

No setor automotivo, a redução de preços foi de 4,2%. No entanto, este setor é um dos que possuem a cadeia de suprimentos mais desenvolvida, segundo Maria Fernanda e Ataíde, o que significa que o índice menor ocorre justamente porque a área já se expandiu em anos anteriores. “Este setor já está bastante enxuto e torna-se difícil obter-se reduções expressivas quando comparado a setores que ainda conseguem reduções de 10,7%, conforme apontado no nosso trabalho”, explicam.

Vale ainda destacar que, mesmo com a crise, para 81% das empresas entrevistadas o percentual de redução de preços obtidos no último ano melhorou, em comparação aos anos anteriores.

Desafios
Apesar de 90% das empresas entrevistadas afirmarem que melhoraram os seus relacionamentos com fornecedores, 71% delas ainda estão insatisfeitas com os seus programas de desenvolvimento de fornecedores.

“A crise veio aumentar a necessidade de maior relacionamento com o fornecedor e a busca do seu desenvolvimento para evitar-se a ruptura devido à quebra do mesmo”, diz Braga. Entre as iniciativas adotadas pelas companhias com o intuito de manter o fornecedor com operacional e saúde financeira estáveis destacam-se o pagamento adiantado pelos materiais a serem recebidos; aceleração do pagamento; pagar mais caro temporariamente e realizar alguma forma de compensação por valor pago a mais; criação de grupos de ajuda técnica ao fornecedor para melhorar a sua eficiência; concessão de empréstimos; ajuda na busca por financiamentos.

“A relação com os fornecedores é fundamental para o sucesso da área, e esta integração só tende a aumentar. Por exemplo, antes as empresas faziam a análise financeira de seus fornecedores somente na hora de fechar o contrato. Hoje, essa análise é periódica”, declara Braga. Segundo ele, uma iniciativa importante para a área é a classificação dos fornecedores por ordem de importância. “É o que os bancos fazem com os seus clientes, por exemplo”, diz.

O desenvolvimento de Recursos Humanos também apresentou um alto índice de insatisfação, com 68%, o que significa que a maioria das organizações sabe que deve investir mais em  programas de capacitação técnica do pessoal de Compras/Suprimentos para a obtenção de melhorias. “A capacitação de profissionais é uma etapa fundamental no processo de transformação da empresa para tornar-se mais sofisticada e, portanto, melhorar o impacto do setor de compras no desempenho da organização”, defende Braga.

A insatisfação com as ferramentas eletrônicas no sourcing e gestão da cadeia de suprimentos também teve índice de 68%. “Isto acontece porque grande parte das companhias, na hora de adquirir uma solução, analisa apenas o seu custo, quando na verdade o que deve ser analisado é o retorno, os benefícios que essas ferramentas irão trazer”, explica Ataíde. Maria Fernanda lembra que com ferramentas e soluções eficazes a empresa pode até mesmo automatizar o trabalho de um colaborador, que pode ser melhor aproveitado na elaboração de planejamentos estratégicos, ponto que toca diretamente no RH da organização.

Para Braga, é também importante que a área de suprimentos trabalhe em conjunto com o setor de Inteligência de Mercado. “A união com o setor de IM é fundamental para melhorar as operações, a compreensão  do universo do mercado fornecedor, do mercado comprador, enfim, dos pontos necessários para conhecer os seus pontos fortes e fracos”, defende o pesquisador. “Ter argumentos de mercado é fundamental para conduzir qualquer negociação”, ressalta.
 

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