A expansão acelerada ficou para trás. Os dados da pesquisa TIC Provedores 2024, do Cetic.br | NIC.br, mostram que o mercado brasileiro de acesso à Internet entrou em uma nova fase, na qual a estabilização do número de empresas empurra os provedores para uma disputa cada vez mais centrada em qualidade, infraestrutura, serviços de maior valor agregado e capacidade de enfrentar um cenário crescente de riscos digitais.
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Em 2024, o Brasil contava com 11.853 provedores de Internet em atividade, número praticamente estável em relação a 2022. O dado confirma que a expansão quantitativa deu lugar a uma disputa mais sofisticada, em que o simples fornecimento de conexão já não é suficiente. A pesquisa, realizada entre setembro de 2024 e abril de 2025 com 1.719 empresas autorizadas pela Anatel, mostra que os provedores passaram a investir de forma mais agressiva em portfólio, experiência do usuário e infraestrutura de rede.
Essa virada estratégica aparece de forma clara na ampliação dos serviços oferecidos. A telefonia sobre IP (VoIP) passou a integrar o portfólio de 35% dos provedores, ante 23% em 2022, enquanto a IPTV avançou de 20% para 32% das empresas. Os serviços de segurança digital seguiram a mesma trajetória e hoje já são ofertados por 32% do mercado, reforçando a tendência de transformação dos provedores em plataformas de serviços digitais, e não apenas de conectividade.
No plano tecnológico, a fibra óptica se consolidou como espinha dorsal da Internet fixa no país. Em 2024, 97% dos provedores utilizavam fibra óptica para atender seus clientes, consolidando um padrão de qualidade que eleva a capacidade das redes e sustenta a expansão do tráfego de dados. Apesar da presença de tecnologias alternativas, como wireless e cabo Ethernet, a fibra se impõe como base para o crescimento sustentável do setor.
Mesmo com esse avanço, o mercado segue fortemente ancorado na atuação local. Quatro em cada dez provedores operam em apenas um município, e outros 40% atuam em até cinco cidades. Essa capilaridade regional reforça o papel estratégico dos provedores locais na expansão da conectividade, especialmente fora dos grandes centros urbanos.
É justamente nesse ponto que a TIC Provedores 2024 traz um dos dados mais relevantes do estudo. Dois terços dos provedores brasileiros já atendem áreas rurais, percentual que chega a 80% no Sul do país. Além disso, 36% dos provedores – cerca de 4.278 empresas – já atendem clientes do setor agropecuário, com destaque para o Centro-Oeste e o Sul. O recorte evidencia que a conectividade rural deixou de ser exceção e passou a integrar o núcleo estratégico do mercado.
A modernização das redes também se reflete no avanço do IPv6, tecnologia considerada crítica para a sustentabilidade da Internet. Em 2024, 72% dos provedores já ofereciam IPv6 aos clientes, avanço significativo frente a 64% em 2022 e 40% em 2020. Ainda assim, o estudo mostra que o custo de investimento, a falta de equipamentos adequados e a escassez de profissionais especializados continuam sendo barreiras relevantes para a adoção plena da tecnologia.
Outro indicador que ganha peso no cenário de competição por qualidade é a participação no IX.br. Atualmente, 34% dos provedores integram o maior conjunto de Pontos de Troca de Tráfego do mundo, apontando ganhos diretos na qualidade da Internet e no acesso a redes de distribuição de conteúdo. A adesão é muito mais expressiva entre médias e grandes empresas, o que revela assimetrias estruturais e desafios adicionais para os pequenos provedores.
Se, por um lado, a infraestrutura avança, por outro, os riscos aumentam. A TIC Provedores 2024 mostra que 30% das empresas relataram ataques de negação de serviço (DDoS) em 2024, contra 23% em 2022. O crescimento foi especialmente forte no Nordeste, onde os relatos saltaram de 14% para 25%. Mesmo com a maioria dos provedores conseguindo manter os serviços em funcionamento, os dados deixam claro que a segurança digital passou a ser um tema central na agenda do setor.
No campo da proteção de dados, o estudo aponta que 42% dos provedores possuem uma área ou responsável dedicado à LGPD, índice estável em relação a 2022, mas que escancara a diferença entre grandes empresas, onde o percentual chega a 85%, e micro e pequenas, que ainda enfrentam maiores dificuldades de conformidade.
Os resultados da TIC Provedores 2024 indicam que o setor entrou em uma fase decisiva. Com o número de empresas estabilizado, a sobrevivência e o crescimento passam a depender da capacidade de oferecer serviços de maior valor, investir em infraestrutura moderna, ampliar a presença em áreas estratégicas como o meio rural e enfrentar um cenário de ameaças digitais cada vez mais sofisticadas. Para os provedores brasileiros, a disputa deixou de ser por quantidade e passou a ser, definitivamente, por qualidade.
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