Armando Terribili Filho, da Faap, comenta os resultados da pesquisa.
No artigo do mês passado, foram apresentados os resultados de um Projeto de Pesquisa de Iniciação Científica patrocinado pela Faculdade de Administração da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) com pesquisa desenvolvida com 34 organizações públicas e privadas do Estado de São Paulo, que tinha por objetivo avaliar a situação do gerenciamento de riscos em projetos nessas organizações (clique aqui).
Dando seguimento a este tema, apresentam-se para debate os resultados de uma seção do questionário de pesquisa contendo nove itens relacionados ao gerenciamento de riscos em projetos, que foram enviados às organizações respondentes através de nove afirmativas, quando então, a organização pesquisada podia assinalar “sempre”, “às vezes” ou “nunca”, em conformidade com sua realidade. A alternativa “sempre” indica que a organização atua de forma sistematizada no item abordado; a opção “às vezes” indica que é algo pontual que ocorre esporadicamente; finalmente, a opção “nunca” indica que o item não é considerado na organização pesquisada.
A primeira afirmativa era “há procedimentos claros na organização para identificação e documentação dos riscos antes da aprovação do projeto”. Os resultados (6,4% de “sempre” e 61,3% de “às vezes”) indicam que em cada três organizações respondentes, duas têm esses procedimentos, porém não estão sistematizados na organização, considerando o baixíssimo índice na alternativa “sempre”.
A segunda afirmativa “os riscos são integrantes do processo decisório de aprovação de projetos” obteve 63,3% para “às vezes” e 23,3% para sempre, demonstrando um elevado percentual nessa área, porém ainda não na forma de um processo sistemático, em função do elevado percentual de “às vezes”.
A terceira afirmativa menciona que “os riscos são priorizados de acordo com o grau de severidade”, tendo 40% de respostas para “às vezes” e 33,3% para “sempre”, mostrando que se trata de um processo usual para cerca de 3/4 das organizações respondentes, porém também não sistematizado para a maior parte.
A quarta afirmação tinha por tema o valor de contingência do projeto (reserva financeira), tendo por base os riscos identificados. O elevado índice de “nunca” com 53,3% evidencia que a maioria das organizações se utiliza de outros critérios para determinar o valor da contingência. Há autores que mencionam 10% sobre o valor do projeto (por exemplo, Dalton Valeriano em “Moderno Gerenciamento de Projetos”. São Paulo: Pearson, 2005); entretanto, essa previsão pode-se mostrar excessivamente elevada ou pequena demais, dependendo dos riscos, da complexidade do projeto e das particularidades de cada risco, como probabilidade e impacto. O Método de Mosler para qualificação dos riscos se utiliza de seis critérios: função (nível de gravidade das consequências ou danos), substituição (grau de dificuldade para substituição), profundidade (grau de perturbação à imagem da empresa), extensão (alcance e extensão dos danos), agressão (probabilidade do evento acontecer) e vulnerabilidade, ou seja, o impacto que pode ser causado. (Marcos Mandarini em “Segurança Corporativa Estratégica: Fundamentos”. Barueri: Manole, 2005). O Método de Mosler embora possa ser considerado subjetivo na avaliação dos seis critérios é mais completo que a tradicional abordagem que considera somente dois critérios: impacto e probabilidade.
“Os riscos são gerenciados durante toda a vida do projeto” era a quinta afirmativa com apenas 10% de resposta “nunca”. Isso indica que grande parte das organizações está gerenciando os riscos nos projetos, seja de forma sistematizada para 23,3% das organizações (resposta “sempre”) ou pontualmente (66,7% – resposta “às vezes”).
A sexta afirmativa “há indicadores de gestão de riscos, que são monitorados durante a vida do projeto” obteve: 13,4% de escolha “sempre” e 43,3% de “às vezes”. A utilização de indicadores é recomendável, por exemplo, indicador de gestão de riscos (para garantir que existe uma efetiva e contínua gestão de riscos) e indicador de exposição a riscos (para medir constantemente o nível de exposição do projeto a riscos).
A afirmativa seguinte era relativa ao registro dos riscos em base de dados de lições aprendidas (lessons learned), com baixos índices de: sempre (13,4%) e às vezes (33,3%), evidenciando a baixa prioridade atribuída pelas organizações na Gestão do Conhecimento na área de riscos de projetos.
A oitava afirmativa refere-se ao uso frequente do PMBOK (Project Management Body of Knowledge) do PMI (Project Management Institute) no gerenciamento de riscos em projetos. Apenas 10% responderam “sempre” e 33,3% optaram por “às vezes”, o que pode ser considerada como uma baixa utilização da “Bíblia” do gerenciamento de projetos, agora em sua 5ª. edição (lançada em 2013).
A nona e última afirmativa era “a organização tem profissionais dedicados exclusivamente ao gerenciamento de riscos”. Para essa questão obteve-se 25,8% para a alternativa “às vezes” e 74,2% para “nunca”, evidenciando que nenhuma das organizações pesquisadas tem profissionais que atuam com dedicação exclusiva a essa área. Todavia, de cada quatro organizações, uma tem em algumas situações (pontualmente) profissionais alocados a este tipo de gerenciamento.
A cultura de gerenciamento de riscos em projetos ainda está em fase de amadurecimento nas organizações. Há casos em que os riscos são identificados, qualificados e quantificados em tempo de “planejamento”. Isto decorre de exigências internas de muitas organizações que têm a criação desta lista como pré-requisito para realizar a venda de um projeto (sobretudo, empresas de consultoria). Todavia, quando o projeto se inicia, abre-se uma gaveta e esta lista de riscos é lá esquecida, como se os riscos deixassem de existir. Em verdade, além daqueles identificados, novos riscos surgem na execução de um projeto. Quando um risco se torna realidade, os impactos no projeto são notórios em várias dimensões: custos, prazos, qualidade entre outras. Os riscos precisam ser gerenciados, as contingências devem ser não somente de custos (como já é relativamente disseminado no mercado), como também de prazos.
Com um maior aprofundamento na investigação da área de gerenciamento de riscos e com uma amostra maior, pode-se ainda pesquisar acerca das técnicas utilizadas para identificação de riscos (lições aprendidas, brainstormings, pesquisas externas e consultas a especialistas), das ferramentas em uso, como construção de cenários, árvore de decisão, simulação de Monte Carlo, dentre outras. Desta forma, com uma amplitude maior nas investigações, a Pesquisa de Iniciação Científica em Gerenciamento de Riscos em Projetos (em curso na Faculdade de Administração da FAAP) pode propiciar às organizações e aos profissionais uma reflexão mais profunda quanto às práticas atuais, trazendo como consequência uma maior profissionalização da área e melhores resultados dos projetos das organizações. Aguardem!
(*)Armando Terribili Filho (PMP) é pós-doutorando e doutor em Educação pela UNESP, mestre em Administração de Empresas e docente na Faculdade de Administração, MBA e pós-graduação na FAAP. Certificado pelo PMI (Project Management Institute) desde 2003 e com vasta experiência como executivo em gerenciamento de projetos em empresa multinacional. É autor dos livros “Indicadores de gerenciamento de projetos: monitoração contínua” (2010) e “Gerenciamento de Projetos em 7 passos: uma abordagem prática” (2011), ambos lançados pela M. Books de São Paulo. É o coordenador da pesquisa mencionada no artigo.

