Durante décadas, os investimentos em segurança física tiveram um objetivo relativamente claro: proteger patrimônios, controlar acessos e registrar ocorrências. Essa lógica está mudando rapidamente. Com a incorporação da inteligência artificial, as câmeras deixaram de ser dispositivos de gravação para se tornar sensores inteligentes capazes de produzir dados estratégicos para praticamente toda a organização.
CONTEÚDO RELACIONADO – Genetec integra visitantes, credenciais e biometria em plataforma SaaS de controle de acesso
O movimento não representa apenas uma evolução tecnológica. Trata-se de uma mudança de paradigma. A segurança física passa a integrar a estratégia digital das empresas, aproximando-se de áreas como operações, recursos humanos, logística, facilities, compliance, gestão industrial e até inteligência corporativa.
Os números mostram que essa transformação está apenas começando. Segundo estudo da Fortune Business Insights, o mercado mundial de inteligência artificial aplicada ao videomonitoramento movimentou US$ 6,26 bilhões em 2025 e deverá alcançar US$ 26,9 bilhões em 2034, crescendo a uma taxa média anual de 18,2%. O crescimento é impulsionado pela demanda por monitoramento em tempo real, automação de processos e geração de inteligência operacional a partir dos vídeos.
Da gravação para a geração de conhecimento
Para Rafaela Macedo Silva, Business Development Manager da Genetec (foto), a principal mudança não está na qualidade das imagens, mas na capacidade de compreender automaticamente o contexto. “O cliente não quer mais apenas assistir vídeos. Ele quer que o sistema entregue respostas”, diz Rafaela.
Na prática, algoritmos de visão computacional conseguem identificar pessoas, veículos, equipamentos, objetos e comportamentos considerados relevantes para determinado ambiente.
Cada evento passa a ser classificado automaticamente, permitindo que o operador realize pesquisas utilizando linguagem natural, em vez de assistir horas de gravações.
É uma mudança semelhante à ocorrida nos mecanismos de busca da internet. Em vez de procurar manualmente uma informação, o sistema localiza exatamente o evento solicitado.
Um avanço impulsionado pela IA generativa. Segundo o estudo, organizações começam a utilizar modelos generativos para produzir resumos automáticos das gravações, identificar anomalias, gerar relatórios e interpretar grandes volumes de vídeo praticamente em tempo real. A pesquisa cita levantamento global realizado pela Axis Communications, segundo o qual 62% dos parceiros de canal apontam IA e IA generativa como a tendência mais relevante para o futuro do setor.
Edge AI muda a arquitetura da segurança
Outra transformação acontece dentro da própria câmera. Em vez de transmitir continuamente imagens para processamento em servidores centrais, boa parte da inteligência passa a ocorrer no dispositivo. É o chamado Edge AI que, segundo Rafaela, reduz drasticamente o tráfego de rede, diminui custos de infraestrutura e acelera a tomada de decisão. “O sistema sabe exatamente o que precisa monitorar”, diz ela.
Essa tendência aparece como uma das principais apostas do mercado no levantamento da Fortune Business Insights. O estudo aponta que o processamento na borda está reinventando o videomonitoramento ao permitir reconhecimento de objetos, identificação de invasões e detecção de comportamentos anormais diretamente nas câmeras, sem necessidade de enviar todos os dados para um data center.
Na prática, as câmeras deixam de funcionar como simples dispositivos de captura para atuar como computadores especializados distribuídos pela operação.
Dados corporativos
A consequência mais relevante dessa evolução talvez seja organizacional. Historicamente, os sistemas de videomonitoramento atendiam exclusivamente às equipes de segurança patrimonial. Agora, os dados produzidos pelas plataformas começam a ser compartilhados com diferentes áreas da empresa.
Com isso, operações utilizam imagens para analisar fluxos; recursos humanos acompanham ocupação de ambientes; facilities monitoram utilização de espaços; equipes industriais acompanham processos; e compliance acelera investigações internas. Segundo Rafaela, a segurança física passa a funcionar como uma nova camada de dados da organização.
A própria estratégia da Genetec reflete esse movimento ao integrar videomonitoramento, controle de acesso, áudio, biometria, leitores de placas, sensores e procedimentos operacionais padronizados (SOP) em uma plataforma única, permitindo que informações antes isoladas passem a alimentar decisões corporativas.
Quanto mais inteligentes, mais vulneráveis
A transformação, entretanto, traz uma contradição. Ao se conectarem à infraestrutura corporativa, câmeras passam a fazer parte da superfície de ataque das organizações.
O dispositivo que antes era apenas um equipamento de vigilância transforma-se em um ativo de TI.
E precisa ser protegido como tal. “Hoje aplicamos às plataformas de segurança física as mesmas políticas de segurança cibernética utilizadas no restante da infraestrutura”, afirma Rafaela.
Segundo ela, segmentação de redes, autenticação forte, atualizações permanentes e ambientes dedicados tornam-se práticas obrigatórias.
O alerta faz sentido. Diversos estudos internacionais apontam dispositivos IoT (internet das coisas) como um dos vetores de ataque mais explorados por criminosos digitais. Em ambientes corporativos, câmeras IP frequentemente figuram entre os equipamentos mais expostos quando não recebem políticas adequadas de gerenciamento.
A convergência entre segurança física e cibersegurança passa, portanto, a ser uma exigência operacional.
A fronteira agora é a privacidade
Existe ainda uma terceira dimensão dessa transformação. Quanto mais inteligentes os sistemas, maior sua capacidade de reconhecer pessoas, interpretar comportamentos e correlacionar informações.
Recursos como reconhecimento facial, biometria, análise comportamental e identificação automática de indivíduos ampliam significativamente o potencial operacional.
Ao mesmo tempo, aumentam as responsabilidades relacionadas à proteção de dados. Na avaliação de Rafaela, não basta desenvolver algoritmos mais sofisticados. É necessário estabelecer regras claras sobre quem pode acessar imagens, por quanto tempo elas permanecem armazenadas e quais finalidades justificam seu uso.
A preocupação vai além da conformidade com a LGPD. Empresas intensivas em pesquisa, inovação e propriedade intelectual também passam a enxergar os sistemas de segurança como parte da proteção contra espionagem industrial e vazamento de informações estratégicas.
A segurança física entra definitivamente na agenda digital
O crescimento acelerado do mercado de IA aplicada ao videomonitoramento revela uma mudança que vai além da modernização das câmeras. A segurança física deixa de ocupar um papel periférico para integrar a arquitetura digital das organizações.
Nesse novo cenário, a discussão já não se limita à escolha do melhor equipamento. As decisões passam a envolver governança de dados, arquitetura de redes, inteligência artificial, privacidade, cibersegurança e geração de valor para o negócio.
Para empresas que enxergam a informação como ativo estratégico, a câmera deixa de ser apenas um instrumento de vigilância. Ela se torna mais um sensor da transformação digital – capaz de produzir inteligência operacional, desde que sua utilização seja acompanhada por políticas robustas de segurança, ética e governança de dados.
Participe das comunidades IPNews no Instagram, Facebook, LinkedIn, X e WhatsApp

