*Por Bruno Rocha
A transformação digital deixou de ser uma tendência emergente e agora é um componente essencial do crescimento econômico global. No Brasil, sua adoção está se acelerando graças a condições únicas que combinam uma força de trabalho jovem, um ecossistema de negócios aberto à inovação e uma infraestrutura digital crescente. Mas, para que esse processo tenha um impacto estrutural e sustentado, são necessárias visão estratégica, liderança corporativa e colaboração multissetorial.
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Segundo o Banco Mundial, a digitalização de setores-chave pode adicionar até 1,2 ponto percentual ao PIB anual da América Latina. O Brasil não é exceção; enfrenta o desafio e a oportunidade de se posicionar como um polo regional de inovação em inteligência artificial. Ao longo do caminho, empresas com presença global e operações locais devem atuar como facilitadoras tecnológicas, desenvolvendo capacidades, talentos e infraestrutura internamente.
- Liderando a adoção da Inteligência Artificial
O Brasil é um dos países latino-americanos com a maior adoção de IA por empresas, de acordo com o relatório mais recente da Intelligent CIO Latin America: 44% dos líderes empresariais afirmam usar IA extensivamente, atrás somente do México (50%) e à frente da Colômbia (41%). Esse número reflete que o setor privado não só está ciente do potencial da IA, como já a está integrando em processos-chave.
O importante é que sua aplicação não é mais experimental. Hoje, modelos preditivos estão sendo implementados para antecipar picos de demanda no varejo, algoritmos de personalização para a experiência bancária e sistemas de IA que otimizam rotas logísticas para grandes fabricantes em tempo real. A partir de centros de inovação locais, soluções baseadas em aprendizado e processamento de linguagem natural estão sendo desenvolvidas para permitir a resolução de problemas do mundo real com eficiência local e escalabilidade global.
- Forjando o talento digital do amanhã
De acordo com a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais (Brasscom), até 2025, o país precisará de aproximadamente 797 mil profissionais em tecnologia da informação e comunicação (TIC), mas enfrenta um déficit anual de cerca de 106 mil talentos qualificados.
Diante dessa realidade, empresas de tecnologia estão implementando programas intensivos de treinamento e requalificação com foco prático e alinhados ao mercado global. Muitos estudantes foram treinados no Brasil por meio de academias de treinamento digital, em tópicos como automação inteligente, análise de dados, computação em nuvem e ética da IA.
Além disso, foram lançadas iniciativas de inclusão com perspectiva de gênero, como programas para mulheres tecnólogas em áreas urbanas e rurais, bem como plataformas de aprendizagem gratuitas para jovens em comunidades marginalizadas. Essa abordagem não apenas gera talentos prontos para os desafios digitais, mas também promove a mobilidade social e o desenvolvimento econômico inclusivo.
- Construir infraestrutura digital resiliente e sustentável
A infraestrutura digital é a base de qualquer estratégia de transformação. A maioria das grandes empresas fez migração para a nuvem, mas muitas ainda estão a operar com legado de sistemas que visam impedir escalabilidade, segurança e energia eficiência.
Centros de tecnologia sediados no país estão desenvolvendo soluções para modernizar infraestruturas críticas, integrando segurança cibernética avançada, automação de TI e análise em tempo real para detectar vulnerabilidades. Isso permite que empresas brasileiras operem sob padrões internacionais de segurança sem renunciar à agilidade.
Ao mesmo tempo, a sustentabilidade digital está se tornando uma prioridade cada vez mais importante. Algoritmos de IA já estão sendo aplicados para otimizar o consumo de energia em data centers, ajustando o resfriamento com base nos padrões operacionais. Ou para reduzir as emissões de carbono, aprimorando as rotas logísticas e minimizando o uso de combustível.
- Promover a colaboração para um progresso inclusivo
A escala da transformação digital só será alcançável por meio da colaboração efetiva entre governo, academia, startups e grandes corporações. Hoje, vemos esforços significativos em regiões onde consórcios de inovação estão se consolidando, conectando talentos, infraestrutura e financiamento para testar soluções de IA em setores como saúde, mobilidade urbana e serviços públicos.
Paralelamente, diversas empresas estão trabalhando com instituições de ensino público para adaptar currículos, lançar laboratórios de IA aplicada e disponibilizar plataformas de treinamento virtual para reduzir a exclusão digital em áreas com acesso limitado. O objetivo é que a digitalização não seja um privilégio, mas uma ferramenta de desenvolvimento para todo o país.
O Brasil tem a capacidade e a responsabilidade de se tornar um polo de inovação digital na América Latina. A inteligência artificial, como catalisadora de eficiência, produtividade e inclusão, pode redefinir a direção econômica do país na próxima década. Mas sua adoção não pode ocorrer sem talentos locais, infraestrutura moderna ou colaboração profunda entre setores.
Nesse contexto, as corporações precisam assumir um papel mais ativo e estratégico. A transformação digital não é um produto comprado; é um processo construído. Nos diversos países onde atuamos na América Latina, soluções tecnológicas com impacto global já estão sendo projetadas e implementadas. A tarefa agora é escalar esse impacto com uma visão de longo prazo. *Bruno Rocha é Country Head da Tata Consultancy Services no Brasil.
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