Banda Larga

Live commerce expande vendas e pressiona infraestrutura digital

A transformação dos shopping centers em plataformas de comércio digital adiciona uma nova dimensão à expansão do live commerce no Brasil: além de aproximar marcas e consumidores, as transmissões ao vivo ampliam a demanda por infraestrutura capaz de distribuir vídeo em tempo real para grandes audiências.

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Um estudo apresentado no USENIX Symposium on Networked Systems Design and Implementation (NSDI) 2026 por pesquisadores da Peking University e da ByteDance mostra que o live streaming é uma fonte relevante de tráfego na internet e impõe custos significativos de banda às redes de distribuição de conteúdo (CDNs). A pesquisa analisou, em larga escala, a operação da CDN global de live streaming da ByteDance, identificando custos tanto no tráfego entre os nós de borda e os usuários quanto na comunicação interna entre os próprios nós da CDN.

O trabalho, intitulado HCDN: Coordinated Stream Scheduling for Cost-Effective Live Video Delivery, aponta que características próprias das transmissões ao vivo — como diferentes níveis de popularidade dos conteúdos e formatos heterogêneos de vídeo — podem aumentar o tráfego interno das CDNs, especialmente quando ocorre perda de cache.

A pesquisa também apresenta uma resposta tecnológica ao problema. Ao longo de quatro anos de implantação, o sistema HCDN foi expandido para mais de 500 clusters de borda e conseguiu reduzir em 36% o custo relativo de banda, mantendo a qualidade de experiência dos usuários.

O resultado ganha relevância à medida que o live commerce deixa de ser uma estratégia restrita a grandes plataformas digitais e passa a ocupar espaços físicos do varejo. Em São Paulo, o Shopping Cidade São Paulo inaugurou, em 28 de julho, um estúdio permanente de live commerce desenvolvido pela SYN em parceria com a Play2Shop.

A proposta é transformar o shopping em uma estrutura de produção de conteúdo e vendas ao vivo. Lojistas podem utilizar o espaço para apresentar produtos, lançar coleções, interagir com consumidores e realizar vendas por meio de plataformas de social commerce e entretenimento.

Entre as marcas que já aderiram à iniciativa estão Hering, Morana, Fuel, Dom Acessórios e LIVE!. A iniciativa também muda a relação entre o espaço físico e a infraestrutura digital. O estoque, os produtos e as equipes permanecem no shopping, mas a audiência potencial deixa de estar limitada aos consumidores que circulam pelo empreendimento. Uma transmissão pode alcançar compradores em diferentes regiões do país simultaneamente.

É justamente essa característica que aproxima o movimento do desafio identificado pela pesquisa da ByteDance. Quanto maior a audiência concentrada em uma transmissão, maior a necessidade de distribuir o mesmo conteúdo de vídeo para múltiplos usuários, exigindo capacidade de processamento, armazenamento temporário, distribuição e conectividade.

Da loja física à CDN

No modelo tradicional, a infraestrutura de telecomunicações precisava atender principalmente ao consumidor que acessava uma loja virtual ou aplicativo. No live commerce, a jornada incorpora uma etapa adicional: a produção e a distribuição contínua de vídeo em tempo real.

A cadeia envolve captura e codificação do conteúdo, envio para a plataforma, processamento, distribuição pela CDN e entrega pela rede de acesso até smartphones, computadores e outros dispositivos.

O estudo da ByteDance chama atenção justamente para essa arquitetura. Segundo os pesquisadores, os custos não estão apenas no chamado tráfego de borda – entre os servidores e os usuários -, mas também no tráfego interno entre os diferentes nós da CDN.

Para o setor de telecomunicações, isso significa que a expansão do live commerce não deve ser observada apenas pelo número de espectadores ou pelo volume de vendas. A qualidade da transmissão depende de uma cadeia de infraestrutura que precisa absorver picos de demanda e entregar baixa latência, estabilidade e qualidade de vídeo.

No caso do Shopping Cidade São Paulo, a operação representa a terceira unidade da Play2Shop no país. O modelo já havia sido implementado no Shopping da Bahia, em Salvador, em março, e chegou ao NorteShopping, no Rio de Janeiro, em julho.

Em uma das transmissões realizadas pela operação, uma única live registrou volume de vendas equivalente a dois dias de operação da loja física, segundo a Play2Shop.

Escala é o próximo desafio

O desempenho comercial ajuda a explicar por que o modelo está avançando, mas também evidencia o desafio tecnológico que acompanha a expansão. Uma loja física possui uma capacidade limitada de atendimento simultâneo. Uma transmissão digital, por outro lado, pode multiplicar a audiência sem aumentar proporcionalmente a estrutura física do ponto de venda.

Essa escalabilidade é uma das vantagens do live commerce, mas também aumenta a necessidade de infraestrutura para distribuição do conteúdo.

A pesquisa da ByteDance mostra que a resposta não está simplesmente em adicionar mais capacidade. Os pesquisadores identificaram oportunidades para reduzir custos utilizando infraestrutura de melhor relação custo-benefício na borda da CDN e aperfeiçoando o direcionamento dos fluxos de vídeo entre os nós da rede.

O HCDN combina nós de borda adicionais, infraestrutura com múltiplas conexões e estratégias de escalonamento de streams. O sistema também incorpora mecanismos para preservar a qualidade de experiência do usuário enquanto otimiza a distribuição dos conteúdos.

A pesquisa reforça, portanto, que a evolução do vídeo ao vivo exige mudanças não apenas nas plataformas de conteúdo, mas na própria arquitetura utilizada para entregar esse conteúdo.

Estudo completo: HCDN: Coordinated Stream Scheduling for Cost-Effective Live Video Delivery — USENIX NSDI 2026

 

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