Análise Setorial

O contínuo desafio da banda larga no Brasil

No ritmo atual, ainda vão décadas para que os países da América Latina alcancem os níveis de países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Espanha.

Trânsito parado, semáforos desligados, iluminação pública apagada, pessoas na rua sem poder trabalhar, sem se comunicar com a família ou amigos, cenas de depressão, desespero e agonia. Não é a descrição de um terremoto, tsunami ou o fim do mundo. É o possível retrato do momento em que a Internet parar.

Talvez seja exagero dizer que a Internet mudou tudo, mas é seguro dizer que o comportamento humano, o conhecimento, a rotina diária e a maneira como trabalhamos e nos relacionamos com as pessoas e com o mundo sentiram a sua pesada influência. Hoje quase tudo está em rede ou é parte integrante da rede. Há algumas semanas foi comemorado o “Dia da Internet” em alguns países. Mas será que aqui no Brasil temos realmente o que “comemorar” com nossos índices de uso, disponibilidade e qualidade dos serviços ofertados de acesso à rede por banda larga?

De acordo com o Relatório Global de Tecnologia da Informação do Fórum Econômico Mundial, de 2009 a 2010, os países da América Latina (representados por Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia e México) possuem aproximadamente 6% de penetração da conectividade de banda larga e os custos de assinatura são dez vezes maiores do que os preços dos países da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico) – considerando Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Espanha.

No ritmo atual, ainda vão décadas para que os países da América Latina alcancem os níveis da OCDE: os países da América Latina possuem 45% de penetração da Internet e 6% de penetração da banda larga, enquanto a OCDE apresenta 85% de penetração da Internet e quase nove vezes o percentual de penetração da banda larga.

Uma pesquisa realizada pela consultoria Point Topic, no fim 2010, demonstrou que a América Latina tem a conectividade de banda larga mais cara do mundo. De acordo com o relatório, o preço médio por megabit/s cobrado para o DSL é superior aos US$ 22. É mais caro do que o cobrado no Oriente Médio e África (US$ 20).

A conectividade de banda larga mais barata do mundo pode ser encontrada em Hong Kong: US$ 0,028 por megabit/s, seguido por Japão (US$ 0,048/Mbps). Pensando nisso, a Telecom Advisory Services LLC solicitou que a GSM Association calculasse o impacto dos impostos no desenvolvimento do segmento de banda larga móvel nos países emergentes. Esta pesquisa foi baseada em estudos de casos de países como México e Brasil, cuja tributação é considerada bastante pesada. O estudo chegou à conclusão de que para cada dólar reduzido dos impostos, os países emergentes gerariam um PIB adicional variando entre US$ 1,40 e US$ 12,60.

As desvantagens econômicas da banda larga fixa tornam a banda larga móvel uma solução possível para o desafio do acesso rápido à Internet. No entanto, apesar da importância fundamental da banda larga sem fio, México e Brasil adotaram uma estratégia de taxação que reduz seu potencial de penetração ao incluir ainda encargos adicionais para a compra de aparelhos e serviços. Tais impostos dificultam a difusão dessa tecnologia, em especial no Brasil.

A difusão da banda larga hoje parece ser essencial, já que a conexão discada não é uma opção aceitável nem mesmo para a população de baixa renda. Pesquisa realizada pela Intel no País apontou que entre os que possuem acesso à Internet em casa, 80% tem banda larga fixa. Além disso, mais de 60% dos donos de PCs no Brasil não podem viver sem acessar a Internet diariamente, além dos 13% que não possuem PC, mas navegam todos os dias.

Partindo da experiência e de casos de sucesso em outros países, observa-se que para a implantação eficiente de sistemas compatíveis com a necessidade que o mercado apresenta, é indicado que indústria, governo e universidades discutam e desenvolvam juntos os melhores modelos para a realidade brasileira e, a partir daí, criem iniciativas que sejam eficientes para o consumidor final, rentáveis para os fornecedores do serviço, e que contribuam para o fortalecimento da economia. Só aí, finalmente, desastres naturais à parte, talvez possamos evitar que a cena descrita logo no início desse texto seja causada por falta de infraestrutura tecnológica. E teremos algo a celebrar em um “Dia da Internet”, falando com orgulho de banda larga e conectividade em nosso País.

*Fabio Tagnin é diretor de Expansão de Mercado da Intel Brasil

 

 

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