Segurança

O lado invisível das caricaturas feitas por IA generativa

A nova trend que tomou conta das redes sociais parece, à primeira vista, apenas entretenimento digital. Usuários pedem ao ChatGPT e ao Gemini que criem caricaturas personalizadas com base “em tudo o que você sabe sobre mim”. O resultado costuma surpreender pela precisão: ambiente de trabalho, traços de personalidade, estilo profissional e até nuances comportamentais aparecem nas imagens geradas.

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Mas o fenômeno vai além da estética. A viralização remete aos temas privacidade, inferência algorítmica e assimetria informacional — temas que vêm sendo discutidos por especialistas em governança digital e proteção de dados.

No artigo “Não é só uma caricatura: o ChatGPT aprende quem você é”, publicado no dia 12 de fevereiro (monitormercantil.com.br), o advogado Rafael Reis, fundador e CEO da RRAconsultoria especializada em Compliance e Governança para o setor tecnológico, chama atenção para o mecanismo por trás da trend. Segundo ele, a relevância do fenômeno não está na imagem final, mas no processo: sistemas de IA generativa constroem representações cada vez mais precisas a partir de histórico de interação, contexto e inferências.

Ao solicitar que a ferramenta leve em conta “tudo o que sabe” e compartilhar com ela uma imagem pessoal, o usuário reconhece que há um acúmulo de dados narrativos. Cada conversa adiciona fragmentos: profissão, preferências, padrões de linguagem, rotina, posicionamentos e até inclinações emocionais. A IA não cria do zero – reorganiza elementos fornecidos ao longo do tempo para produzir uma representação coerente.

O ponto central destacado na análise é a assimetria. Enquanto o usuário enxerga respostas contextualizadas e criativas, as empresas que operam os modelos enxergam padrões em escala. A infraestrutura é privada e concentrada, sob controle de companhias que definem regras de uso, retenção de dados e arquitetura técnica.

Nesse contexto, opiniões de especialistas em cibersegurança reforçam a necessidade de atenção. Jake Moore, assessor global de cibersegurança da ESET, alerta que uploads de fotos e dados pessoais em tendências de IA podem levar ao armazenamento e à análise desses dados pelos sistemas, aumentando preocupações de privacidade e riscos como roubo de identidade.

Para Moore, “quando usuários compartilham imagens e detalhes pessoais em massa, sem compreender como esses dados são processados ou retidos, a fronteira entre entretenimento e exposição informacional torna-se perigosamente tênue.”

Da caricatura ao escaneamento da íris

O fenômeno atual ressuscita outra polêmica sobre a coleta de íris promovida pela Tools for Humanity, empresa associada ao projeto Worldcoin, ligado a Sam Altman – uma das principais lideranças globais em IA e associado à OpenAI.

A iniciativa, que ocorreu em shoppings de São Paulo – entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 -, exigia o download do aplicativo “World App”, agendamento e comparecimento a um ponto com a máquina esférica “Orb”, responsável por capturar imagens em alta resolução da íris. Em troca, os participantes recebiam entre 48 e 50 moedas digitais World (WLD), que no início de 2025 correspondiam a aproximadamente R$ 700, dependendo da cotação. Segundo a empresa, o objetivo era criar uma identidade digital – o chamado World ID – para diferenciar humanos de bots na internet.

Entidades de defesa do consumidor, como o Idec, alertaram para os riscos da prática, destacando que a íris é um dado biométrico único e permanente. Diferentemente de uma senha, não pode ser alterada em caso de vazamento. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou processo de fiscalização sobre o uso dessas informações e a atividade foi suspensa em fevereiro de 2025, após decisões governamentais.

Identidade, valor e opacidade

Embora distintos, os dois fenômenos – caricaturas geradas por IA e escaneamento biométrico – convergem para um mesmo eixo: a construção de identidade digital. No caso da íris, há uma troca explícita de dado biométrico por criptomoeda. No caso da IA generativa, a troca é mais difusa. O usuário fornece contexto, preferências e narrativas pessoais em busca de conveniência ou entretenimento. Em contrapartida, recebe respostas mais precisas e personalizadas.

A trend das caricaturas, ao tornar visível o nível de conhecimento acumulado pelas ferramentas, acabou funcionando como um experimento público sobre perfilamento digital. Do ponto de vista jurídico, o fenômeno se aproxima do que a legislação europeia define como “perfilamento”: uso automatizado de dados para avaliar ou prever aspectos pessoais, profissionais ou comportamentais de um indivíduo. A LGPD brasileira também reconhece o direito do titular de solicitar revisão de decisões tomadas com base em tratamento automatizado.

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