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O novo dilema dos CIOs diante do próximo PC na era da IA

*Por Fabiano Takahashi

Um equipamento tão presente na rotina de trabalho, o computador pessoal, voltou ao centro do debate estratégico nas empresas. Nem é necessariamente pela tela dobrável, SSDs (Solid State Drive) mais velozes ou uma nova geração de memória. O motivo agora é outro e bem mais profundo. Os computadores ganharam um novo componente chamado NPU (Neural Processing Unit). É uma tecnologia que muda tudo.

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A transformação pode parecer sutil à primeira vista, mas é irreversível. O processamento local de algoritmos de IA (inteligência artificial), embarcado em dispositivos de uso individual nas corporações, rompe a lógica histórica de que só servidores e nuvens merecem atenção no plano de modernização da TI. O endpoint passou a ser uma plataforma de inferência e produtividade exponencial.

E o mais curioso é que alguns CIOs ainda não perceberam o tamanho dessa virada. Estão comprando, sem saber, equipamentos já superados. Ou pior: adiando decisões que os concorrentes mais atentos já tomaram.  O PC mudou e os CIOs precisam mudar com ele.

A geração atual de PCs com NPU já não é promessa. Está disponível comercialmente em larga escala. O mercado de AI PCs (Artificial Intelligence Personal Computers) entrou em sua fase de adoção precoce e as empresas estão no centro desse movimento, principalmente com o lançamento da linha Copilot+ da Microsoft e os novos chips da Intel, AMD e Qualcomm. Segundo o Gartner, 43% de todos os PCs enviados globalmente em 2025 já terão funcionalidades de IA embarcada. Não se trata de um modismo técnico. Trata-se de um novo paradigma computacional.

Segundo o relatório Cisco AI Readiness Index apenas 13% das empresas estão preparadas para a adoção plena de IA. Boa parte dessa lacuna passa justamente pela incapacidade de modernizar o parque de dispositivos de forma alinhada ao restante da arquitetura. Mais do que nunca, o PC deve ser pensado como uma extensão da nuvem, como elo final de uma cadeia de valor inteligente e automatizada. Equipá-lo com NPU não é luxo: é pré-requisito técnico.

Entre o medo e a pressa, o novo dilema dos CIOs é a decisão da compra do próximo modelo de PC para atualização do parque de TI da empresa em que atua. O mercado corporativo vive hoje um impasse real. De um lado, a pressão crescente para modernizar, vinda da diretoria, do mercado, da concorrência. Do outro, a insegurança quanto ao timing certo, à maturidade das aplicações e à obsolescência precoce.

De fato, as objeções são legítimas. Segundo o relatório da Cisco, 50% das empresas já alocam entre 10% e 30% do orçamento de TI para IA, mas quase metade não colheu os resultados esperados até agora. Apenas 38% possuem métricas claras para mensurar o impacto das aplicações de inteligência artificial. O problema está na lacuna entre ambição e execução. Entre o discurso de IA nas reuniões de conselho e a falta de capacidade local de inferência nos dispositivos do dia a dia. O AI PC entra como ponto de equilíbrio possível.

As razões técnicas são robustas. As NPUs executam tarefas paralelas com altíssima eficiência energética. São capazes de realizar inferências locais com baixíssimo consumo, o que reduz a necessidade de tráfego de dados para a nuvem e garante maior segurança e privacidade. Em tempos de ataques crescentes, isso conta e muito.

Segundo a mesma Cisco, 93% das empresas estimam que sua infraestrutura atual sofrerá sobrecarga com a expansão da IA. Mais da metade das companhias afirma que seus sistemas ainda carecem de flexibilidade e escalabilidade. Mais de 70% admitem não ter confiança suficiente nos recursos computacionais disponíveis para suportar as cargas de IA. Ao descentralizar parte do processamento com a ajuda dos AI PCs, ganha-se performance, reduz-se latência e amplia-se a autonomia da força de trabalho — que passa a contar com recursos de copilotos locais, mesmo offline.

Além disso, segundo o estudo da Deloitte “The State of AI in the Enterprise” (2024), organizações que adotaram inferência local para IA em endpoints reduziram em média 18% os custos com uso de nuvem pública e aumentaram em 21% a disponibilidade de aplicações para usuários finais.

Nem tudo, porém, se resolve somente com hardware. A maior barreira para a adoção plena da IA segue sendo cultural. Ainda segundo o Cisco AI Readiness Index, apenas 9% das empresas apresentam cultura organizacional madura para adotar IA. O número de conselhos administrativos receptivos à IA caiu de 82% para 66% em apenas um ano. Não por acaso, só 28% das empresas têm planos estruturados de gestão da mudança. A falta de clareza estratégica se reflete em decisões indecisas, compras tímidas e adiamentos indefinidos. O resultado é previsível: enquanto alguns avançam com eficiência, outros ficam paralisados por medo. E nesse novo ciclo tecnológico, a hesitação custa caro.

A pergunta já não é “se” vale a pena investir em PCs com IA. A pergunta que aliás nem precisa ser feita é como construir um ciclo virtuoso entre endpoint, nuvem e aplicações que garanta resiliência, performance e escalabilidade. Para empresas com ciclos de renovação mais curtos ou cultura de investimento flexível, faz sentido adotar um modelo gradual: começar com modelos convencionais e migrar rapidamente para AI PCs assim que aplicações específicas forem incorporadas ao core business.

Já companhias com ciclos rígidos e planos de amortização de 3 a 5 anos devem adotar hoje mesmo máquinas com NPU. Ainda que as aplicações mais intensas não estejam disponíveis de imediato, esses dispositivos garantirão longevidade técnica e viabilidade futura, sem necessidade de substituições fora do ciclo.

Há inclusive opções no mercado para locar computadores com NPU por meio de soluções como Hardware as a Service (HaaS), em que empresas alugam em vez de comprar equipamentos. O serviço é uma oportunidade para CIOs avançarem nos modelos com IA, sem muito medo de errar. Assim, podem começar aos poucos, locando algumas máquinas com NPU e depois aumentar a quantidade à medida que os projetos nas empresas ganhem mais tração.

É a lógica da previsibilidade. E, convenhamos, previsibilidade vale ouro quando falamos de investimento em TI. A revolução dos AI PCs é silenciosa, mas fulminante. Não faz barulho. Mas muda tudo. Empresas que ainda encaram o computador como simples terminal de produtividade correm o risco de ver esse terminal se tornar o elo fraco da cadeia digital. E o mais grave: um elo fraco que pode custar a vantagem competitiva de toda a organização.

Quem ainda hesita em levar a IA até a ponta da operação precisa reavaliar suas premissas. A era dos computadores pensantes começou. E os CIOs que agirem com ousadia agora não apenas colherão os frutos mais cedo. Serão eles os que definirão os rumos do mercado porque ou se avança ou se assiste à concorrência avançar.  *Fabiano Takahashi é gerente de Produtos da Positivo Tecnologia. 

Este artigo é de total responsabilidade do autor, não representando, necessariamente, a opinião do Portal IPNews.

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