Em um estado esquecido pelas operadoras de telecomunicações e onde havia o desuso da fibra óptica disponível nas instalações da Eletronorte, concessionária de energia elétrica, governo estadual decide usar essa estrutura e cria o projeto de inclusão digital NavegaPará.
O projeto tem o objetivo de suprir a demanda por acesso rápido e melhorar a inclusão. Hoje, com o projeto em vigor, 16 cidades estão conectadas entre si e, até o fim de 2010, 80% dos paraenses terão banda larga acessível
Uma estrutura montada e que não era bem utilizada. Essa história acontecia no estado do Pará, onde a Eletronorte possui 1800 quilômetros de 36 pares de fibra óptica instalados nas torres de rede transmissão de energia elétrica. Até 2007, diante de toda aquela arquitetura óptica, a concessionária utilizava apenas um par, que servia para supervisionar o sistema de transmissão da concessionária e se havia algum problema de latência.
Segundo o presidente da empresa de processamento de dados do Pará (Prodepa), Renato Francês, um dos motivos para a criação do projeto era porque a região amazônica sempre foi destituída pelos projetos de Telecom. “Como o estado não tinha a verba necessária para investir na implementação de uma infraestrutura que abrangesse toda a região, a alternativa foi realizar um convênio com a empresa de transmissão elétrica e usar o que ela tinha disponível”.
Como todos os 35 pares restantes não eram usados, a Prodepa adquiriu dois pares da rede, sendo um para os serviços de transferência de dados e o outro como reserva (redundância). Cada par tem capacidade de 20 Gigabytes por segundo, cujo espaço não é disponível em Belém por outro sistema de rede.
A fibra óptica está em um cano acima da instalação do sistema de transmissão de energia nas torres, sendo um conjunto de cabos para-raio e com o objetivo de proteger a estrutura das descargas elétricas. Por ser um componente blindado, a concessionária aproveitou dessa mesma engenharia para colocar no seu interior pares de fibra óptica.
O projeto
Com a premissa de atender o planejamento estadual de diretrizes para a inclusão digital, houve a criação do projeto NavegaPará, coordenado pelo presidente da empresa de processamentos paraense. A primeira ação do plano de governo foi a criação de um convênio com a Eletronorte, em março de 2007, para a utilização de sua malha de rede óptica. O próximo passo da Prodepa foi a entrada com o pedido de homologação para a licença SCM (Serviço de Comunicação Multimídia). “A demora da Anatel em licenciar o nosso pedido foi um dos empecilhos para agilizar o processo de implementação, que durou um ano”, diz Francês.
Para a primeira fase do projeto NavegaPará foram investidos R$ 6 milhões para a compra de equipamentos de TI e R$ 10 milhões para a instalação de novas torres backbones. Além disso, dentro do plano de governo foram criadas ações estruturantes de inclusão digital (subprogramas) para otimizar as diretrizes, como as cidades digitais, infovias e metrobel.
O total da rede disponível, sendo da Eletronorte e do Governo, é de 2200 quilômetros de extensão. Recentemente foi realizado um acordo com a Vale para o uso da rede de fibras de seu mineroduto e, assim, atender a região do sul do estado, onde também não tem infraestrutura de telecomunicações. Serão mais 240 quilômetros de cabeamento.
A interligação do Pará é realizada pelo sistema DWDM (Dense Wavelenght Division Multiplexing) e sistema SDH – Synchronous Digital Hierarchy – STM16 (2,5 Gbps). Também foram instaladas as linhas de transmissão nas localidades próximas das subestações e repetidoras da Eletronorte.
Atualmente são 16 municípios conectados, utilizando aplicativos de TI como telemedicina, tele-educação e de segurança pública, além da interligação das cidades. O máximo de espaço que os municípios utilizam é de 200 megabit por segundo. “Com todos os usuários que temos e com os tráfegos sobre IP realizados, como é caso de transferência de imagens, não ocupamos nem 1% do que ela pode nos oferecer. É gigantesca a nossa rede”, avalia Francês.
Antes da implementação do NavegaPará, os gastos de TI eram altos para o governo paraense. Despesas anuais como o pagamento da contratação de links dedicados chegava a R$ 27 milhões, assim como o de telefonia, em torno de R$ 50 milhões. Com o projeto em prática, o governo reduziu a nível zero o uso dos links, além de uma economia de até 60% com ligações fixa.
Próximos passos
Segundo Francês, a meta do governo é chegar até o final de 2010 com 61 municípios conectados, no que resulta em quase 80% da população da população com acesso, incluindo tribos indígenas e comunidades quilombolas. Também será aumentado o número de instituições públicas conectadas, sendo na área de ensino, pesquisa, ligadas a rede, além de mais 1500 unidades, como quartel, hospitais, delegacia, universidade e escolas.
No final do primeiro semestre de 2010, a Prodepa tem o objetivo de vender seus links para o setor privado. A comercialização se baseia no conceito de ter sustentabilidade do programa. “Com a captação do recurso, investiremos na ampliação e manutenção de nossa infraestrutura. Ou seja, será financiado pelo próprio programa”, diz o presidente da entidade pública.
A Prodepa também iniciou um movimento da criação de uma rede pública amazônica, baseada em toda a rede da Eletronorte instalada no Maranhão e Tocantins. A ideia é que o projeto seja custeado pelos próprios estados, como aconteceu no Pará e, com isso, criem uma rede de acesso até Brasília. Essa malha permitirá que outros estados, como o Amapá, entrem no plano de convergência digital, por meio do escoamento dos três territórios e acelere a inclusão digital.
“Não temos dinheiro para implantar uma rede e investir no tamanho de infraestrutura que cubra a região. Temos que aproveitar o que já existe e usá-la com eficiência. No entanto, infelizmente a demora para iniciar o projeto se deu por fatores políticos e não tecnológicos”, conclui Renato Francês.

