Economia Digital

Tokenização imobiliária deve ultrapassar US$ 25 bilhões no mundo – Brasil lidera inovação regulatória

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A Associação Brasileira das Empresas Tokenizadoras (ABToken) elaborou o relatório “Panorama Estratégico e Regulatório da Tokenização Imobiliária: Dinâmicas Globais e a Vanguarda do Mercado Brasileiro”, um documento robusto sobre o ecossistema de tokenização imobiliária. O documento revela que a tokenização imobiliária no Brasil já mobilizou a impressionante cifra de R$ 20 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV), consolidando o país como protagonista inconteste no cenário global de Real World Assets (RWAs).

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O material disseca as infraestruturas tecnológicas subjacentes, os volumes de mercado, as tendências de adoção global e nacional, os modelos de negócios emergentes e o complexo arcabouço regulatório. Hoje, a tokenização imobiliária representa a convergência entre a infraestrutura financeira baseada em Distributed Ledger Technology (DLT) e o mercado de Real World Assets (RWAs), ou seja, trata-se da conversão de direitos vinculados a imóveis — como propriedade, usufruto ou recebíveis — em tokens digitais programáveis registrados em blockchain.

Segundo Regina Pedroso, diretora executiva da ABToken, diferentemente dos modelos tradicionais, como os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs), os tokens podem representar frações diretas e indivisíveis de ativos, com regras automatizadas via smart contracts. “Essa arquitetura redefine a lógica de confiança, reduz intermediários e permite a execução automática de fluxos financeiros, como distribuição de rendimentos e reajustes”. 

Engenharia da tokenização

O material explica que a engenharia da tokenização é estruturada em três camadas: o ativo físico, a estrutura jurídica (como SPEs ou fundos) e a camada tecnológica baseada em blockchain. No caso de padrões mais avançados, como ERC-1400 e ERC-3643, já incorporam requisitos de conformidade, identidade digital e controles regulatórios, permitindo operações seguras em ambientes institucionais.

“O Brasil, impulsionado por um sistema financeiro altamente digitalizado e uma postura regulatória proativa, assumiu a vanguarda, com mais de 450 incorporadoras estruturando operações e 30 mil carteiras digitais ativas. No entanto, o desafio de converter esse VGV em estoque efetivamente custodiado nas tesourarias está intrinsecamente ligado à maturação legal e à resolução de fricções institucionais”, avalia Regina.

 Liquidez, eficiência e democratização do acesso

Um dos principais impactos econômicos apontados pela ABToken é a resolução do problema histórico de iliquidez do mercado imobiliário. “No Brasil, esse mercado representa aproximadamente R$ 2,8 trilhões em ativos, tradicionalmente caracterizados por baixa liquidez e altos custos transacionais”, diz Regina. “A tokenização transforma esses ativos em instrumentos negociáveis, criando novos canais de funding para incorporadoras e ampliando o acesso de investidores a ativos antes restritos. Além disso, a liquidação atômica (Delivery versus Payment) elimina riscos de contraparte, enquanto a programabilidade reduz custos operacionais e aumenta a eficiência do back-office financeiro”, acrescenta.

O relatório da ABToken aponta que o mercado global de tokenização imobiliária, avaliado entre US$ 3,7 bilhões e US$ 3,8 bilhões em 2025, pode atingir até US$ 26,4 bilhões até 2035, com crescimento anual composto entre 21% e 24%. A adoção institucional também avança rapidamente, com expectativa de alocação de até 5,6% dos portfólios globais em ativos tokenizados já em 2026.

No Brasil, o avanço é ainda mais expressivo. O relatório revela que o mercado já atingiu R$ 20 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) estruturado em operações de tokenização imobiliária. O país também registrou crescimento superior a 1.100% no mercado de RWAs em apenas um ano, com mais de 450 incorporadoras envolvidas e dezenas de milhares de carteiras digitais ativas.

Apesar disso, a ABToken chama atenção para uma assimetria relevante: o volume efetivamente tokenizado e negociado ainda é significativamente inferior ao potencial estruturado, refletindo entraves jurídicos e institucionais que limitam a liquidez do mercado.

Ambiente regulatório

A análise regulatória é um dos pilares do relatório. A ABToken destaca o papel da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que tem consolidado o entendimento de tokens como valores mobiliários em determinadas estruturas, especialmente via Resolução 88 e sua atualização pela Resolução 226/2025. Ao mesmo tempo, o estudo aborda conflitos institucionais recentes envolvendo diferentes entidades reguladoras e o sistema registral imobiliário, evidenciando a complexidade da integração entre inovação tecnológica e legislação vigente. Atualmente, tokens imobiliários no Brasil ainda não substituem o registro em cartório para fins de propriedade plena, sendo considerados instrumentos de natureza obrigacional. Isso reforça a necessidade de evolução legislativa.

Nesse contexto, o Projeto de Lei nº 4.438/2025 surge como um marco potencial para o setor. A proposta prevê a integração entre blockchain e o sistema de registro de imóveis, possibilitando a criação de matrículas tokenizadas com validade jurídica plena.

Segundo a ABToken, a aprovação de um marco legal específico será determinante para transformar o potencial do mercado em liquidez efetiva e escala institucional. O relatório também aborda riscos críticos, como a responsabilidade das plataformas em casos de fraude, a necessidade de segregação patrimonial para proteção dos investidores e a limitação atual da blockchain frente à fé pública dos registros oficiais. Além disso, a adoção de estruturas como SPEs e regimes de patrimônio de afetação é apontada como essencial para garantir segurança jurídica e proteção contra insolvência dos emissores.

Para a entidade, a tokenização imobiliária já ultrapassou a fase experimental e se consolida como uma nova infraestrutura do mercado de capitais. O avanço do setor dependerá da convergência entre tecnologia, regulação e instituições. “O futuro do mercado imobiliário será programável, interoperável e digital. A tokenização não é mais uma tendência, é uma mudança estrutural em curso”, finaliza Regina.

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