Durante o Cisco Live Amsterdam, a Cisco apresentou uma reformulação estratégica de seu portfólio de segurança com foco na chamada era da IA agente — um cenário em que sistemas de inteligência artificial deixam de apenas responder a comandos e passam a executar tarefas, acionar ferramentas, interagir com aplicações corporativas e tomar decisões de forma autônoma. A mensagem central é clara: sem segurança estruturada, não há adoção sustentável de agentes de IA nas empresas.
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O avanço dos agentes autônomos amplia significativamente a superfície de ataque. Diferentemente dos assistentes tradicionais baseados em LLMs, esses sistemas operam em ambientes híbridos, acessam múltiplas fontes de dados, conectam-se a ferramentas externas e executam ações com impacto direto nos processos de negócio. Isso exige não apenas proteger modelos, mas governar interações, controlar permissões e garantir conectividade resiliente e criptografada.
Nesse contexto, a companhia anunciou a maior expansão já realizada no Cisco AI Defense desde seu lançamento, em janeiro de 2025. A atualização amplia a governança sobre a cadeia de suprimentos de IA e reforça mecanismos de proteção em tempo de execução. Um dos destaques é a introdução do AI BOM (Bill of Materials), que oferece inventário centralizado de ativos de software de IA, incluindo servidores de protocolo de contexto de modelo (MCP) e dependências de terceiros. A iniciativa busca dar visibilidade a componentes que, até então, ficavam dispersos e pouco monitorados dentro das arquiteturas corporativas.
A empresa também apresentou um catálogo MCP capaz de mapear e gerenciar riscos associados a servidores e registros em ambientes públicos e privados, além de expandir suas capacidades de red teaming algorítmico com testes adaptativos em múltiplos idiomas e cenários de interação. Na prática, isso significa ampliar a capacidade de identificar vulnerabilidades antes que agentes sejam manipulados ou direcionados a executar ações indevidas.
Outro ponto relevante é a proteção agêntica em tempo real. A solução passa a monitorar continuamente interações para detectar comportamentos suspeitos, como ferramentas envenenadas ou prompts desenhados para induzir o uso não autorizado de recursos. A proposta é permitir que equipes de segurança apliquem políticas dinâmicas e reduzam riscos de comprometimento operacional.
Paralelamente, a Cisco reforçou sua estratégia em Secure Access Service Edge (SASE), incorporando recursos com reconhecimento de inteligência artificial. O desafio aqui é duplo: garantir desempenho e, ao mesmo tempo, interpretar comunicações semanticamente complexas que envolvem agentes, modelos de linguagem, aplicações SaaS e bases de dados. Ferramentas tradicionais de inspeção, baseadas apenas em análise de tráfego ou assinaturas, não conseguem compreender o contexto e a intenção por trás das interações agênticas.
Para enfrentar esse cenário, a empresa anunciou mecanismos de detecção e otimização de tráfego de IA, capazes de manter baixa latência mesmo em picos de carga, além de controles de visibilidade e governança sobre comunicações MCP. Um dos diferenciais é a chamada inspeção consciente de intenção, que combina análise rápida local com processamento em nuvem para avaliar o “porquê” e o “como” das ações executadas por agentes.
A companhia também destacou a necessidade de preparar as redes para um ambiente em que fluxos de trabalho impulsionados por IA atravessam campi, filiais e ambientes híbridos. Nesse sentido, apresentou o IOS XE 26, nova versão de seu sistema operacional de rede, que passa a oferecer criptografia pós-quântica de pilha completa para o ambiente corporativo. A medida busca antecipar riscos associados à computação quântica e alinhar-se a exigências regulatórias globais em evolução.
O movimento revela uma leitura estratégica do mercado: à medida que agentes assumem funções críticas, a segurança deixa de ser camada adicional e passa a ser infraestrutura essencial da própria IA. A discussão já não se limita à proteção de dados ou à conformidade regulatória. Trata-se de garantir que sistemas autônomos operem dentro de limites claros, com governança, rastreabilidade e controle.
Ao posicionar segurança como habilitadora da IA agente, a Cisco reforça a tese de que a próxima onda de transformação digital dependerá menos da capacidade de desenvolver modelos e mais da capacidade de protegê-los, governá-los e integrá-los de forma resiliente ao ambiente corporativo.
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