Economia Digital

Governos levam sistemas e dados críticos para o exterior

A crescente tensão geopolítica e o aumento dos ataques cibernéticos estão mudando a forma como governos e empresas tratam a proteção de seus ativos digitais. Segundo o Gartner, pelo menos 15% dos países localizados em zonas geopolíticas voláteis deverão estabelecer acordos formais de “embaixadas de dados” até 2029, um modelo que permite hospedar infraestrutura digital crítica em território estrangeiro sem abrir mão da soberania e do controle jurídico sobre essas informações.

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A previsão sinaliza uma mudança importante no conceito de soberania digital. Em vez de concentrar esforços apenas na residência dos dados dentro das fronteiras nacionais, governos passam a priorizar a chamada dispersão soberana, estratégia que distribui aplicações, dados e infraestrutura entre diferentes localidades para reduzir riscos de interrupção dos serviços públicos e evitar que um único evento comprometa toda a operação do Estado.

De acordo com Daniel Nieto, diretor-analista sênior do Gartner, a localização física dos dados deixou de ser suficiente para garantir segurança. “A crescente instabilidade geopolítica, as ameaças cibernéticas e os riscos associados à concentração da infraestrutura estão levando os governos a buscar estratégias operacionais mais resilientes, dissociando dados, aplicações e infraestrutura crítica da geografia física, sem perder a soberania jurídica”, afirma.

Embora a projeção esteja voltada principalmente para países sujeitos a conflitos ou instabilidade política, seus impactos tendem a alcançar mercados considerados estratégicos para a economia digital, entre eles o Brasil.

Nos últimos anos, o país consolidou sua posição como principal polo latino-americano de infraestrutura digital, atraindo investimentos bilionários em data centers, computação em nuvem e inteligência artificial. Esse ambiente coloca o Brasil em posição privilegiada para acompanhar uma nova etapa da transformação digital, na qual a capacidade de garantir continuidade operacional passa a ser tão importante quanto a capacidade de processamento.

A adoção de modelos inspirados nas embaixadas de dados tende a fortalecer a demanda por soluções de nuvem soberana, arquiteturas multicloud, ambientes de recuperação de desastres, criptografia avançada e plataformas de segurança capazes de operar mesmo em cenários extremos. Para fornecedores de tecnologia, integradores, operadores de data centers e empresas de cibersegurança, isso representa uma oportunidade de expansão em um mercado que passa a valorizar não apenas capacidade computacional, mas também resiliência.

O Gartner destaca que registros civis, sistemas tributários, cadastros de propriedades e outras bases críticas poderão ser replicados em ambientes externos protegidos, funcionando como extensões sincronizadas da infraestrutura nacional. Dessa forma, mesmo diante de eventos classificados como Black Sky — situações em que ataques cibernéticos, desastres naturais ou conflitos comprometem severamente a infraestrutura de um país — os governos conseguiriam manter serviços essenciais em funcionamento.

Para aplicações relacionadas à defesa e à inteligência, a consultoria recomenda mecanismos adicionais de proteção, como criptografia pós-quântica e arquiteturas baseadas no modelo Zero Trust, capazes de preservar a integridade e a confidencialidade dos sistemas mesmo quando hospedados fora das fronteiras nacionais.

Embora o conceito de embaixadas de dados tenha surgido no setor público, especialistas avaliam que seus princípios deverão influenciar também a estratégia das empresas. Setores como financeiro, telecomunicações, energia, saúde e infraestrutura crítica enfrentam desafios semelhantes de continuidade operacional e proteção contra riscos cibernéticos, tornando cada vez mais necessária a distribuição geográfica de aplicações e dados.

Para o mercado brasileiro de tecnologia, a previsão do Gartner reforça uma tendência que já vinha sendo observada com a expansão da inteligência artificial e dos data centers: a infraestrutura digital deixa de ser apenas um suporte para os negócios e passa a ocupar posição central nas estratégias de competitividade, segurança nacional e soberania tecnológica. Nesse cenário, o Brasil pode ampliar seu protagonismo regional ao reunir capacidade de infraestrutura, conectividade e um mercado em rápida expansão para serviços digitais de alta criticidade.

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