Ponto de Vista

Inteligência Competitiva: Informação e conhecimento acionável

 

Com a informação cada vez mais abundante, veio a pergunta: o que fazer com tanta informação, tanto dado? É sobre o que fala Fernando de Almeida, da ADVS/Academy of CI.

 

Houve um tempo em que informação era um insumo escasso. Obter informações do mercado ou da concorrência exigia esforço, tempo das pessoas a campo. Antecipar os passos de um concorrente era tarefa que exigia buscar informação distante e de difícil obtenção. Algumas empresas menos éticas apelavam para a espionagem. E algumas ainda apelam. Não é preciso citar nomes. (Inteligência Competitiva não é isso! É um processo ético que lida com informação pública. Vide código de ética da SCIP – Strategic and Competitive Intelligence Professionals).  No entanto a informação se tornou abundante. E veio a pergunta: O que fazer com tanta informação, tanto dado?

Melhor selecionar, pescar informação relevante, de maneira ética, no mar de informação disponível. Em seguida saber interpretar, trazer perspectivas sobre os dados e informações que se vê na frente. Isso é inteligência Competitiva: Capacidade de identificar e selecionar informação relevante e em seguida transformar em perspectivas e visão antecipativa sobre o ambiente competitivo.

Há algo como 30 anos atrás o conceito Inteligência Competitiva começou a ganhar velocidade a partir de profissionais hoje consagrados como Herring, Gilad, Fuld (Boston) e Lesca (Grenoble-França), Henri Dou (França), entre outros.

A atividade tem evoluído e se transformado. Empresas criam áreas de inteligência. Tem enriquecido seu conceito de visões mais operacionais como a de inteligência de mercado a abordagens mais antecipativas como inteligência estratégica, buscando antecipar movimentos da concorrência, mas também do ambiente mais geral onde a empresa está inserida: novos entrantes, novas tecnologias, impacto de ações governamentais, mudanças de comportamento da sociedade, novas legislações.

O trabalho de inteligência competitiva deve buscar perspectivas que antecipem os movimentos dos players cujas ações impactam no negócio da empresa. Seja governo, seja concorrência, clientes, tecnologias ou outros. Inteligência Competitiva para a empresa significa identificar as informações pertinentes e selecioná-las a partir do mar de informação que se tornou o mundo de hoje e trazer as interpretações e hipóteses possíveis dos movimentos competitivos que estão por vir. Não é adivinhar o futuro, mas juntar um quebra-cabeças cujas peças estão disponíveis. Mas quais peças selecionar? Imagine um quebra-cabeças onde foram misturadas inúmeras outras peças que não pertencem ao quebra-cabeças. Um quebra-cabeça que para ser montado exige capacidade de análise, interpretação, julgamento, intuição, criatividade. Montá-lo significa intepretar, entender, concluir, inferir, perceber, antever.

As empresas tem divagado na maneira de buscar gerar conhecimento a partir dos dados disponíveis no ambiente competitivo, isto é, na maneira de tentar fazer inteligência competitiva (muitas não vão muito longe de análises históricas de dados de mercado e geração de relatórios de tendências. Assumindo que o futuro é uma mera projeção do passado). Há algum tempo, desde que a tecnologia de informação se tornou fortemente presente e disponível, muitas caminharam para um intenso tratamento de dados através de ferramentas de busca (Google no mínimo) e ferramentas sofisticadas de análise de dados (SPSS, SAS, são as mais gerais), ferramentas de geração de relatórios pré-formatados a serem proferidos pelos sistemas de informação. Os congressos na área IC se multiplicam em ferramentas informatizadas de tratamento de dados.

Mas a tecnologia de informação é um passo intermediário no processo de IC que no entanto costuma tomar um destaque excessivo.  E relatórios são gerados automaticamente, periodicamente na mesa dos executivos. Quem acha que ainda está atrasado pois nem consegue que suas equipes gerem estes relatórios, não se preocupe. Eles falam do passado. Não vão ajudá-lo a entender o que vem pela frente. Deve-se ir além da geração de análises adequadas a partir das informações obtidas, indo além da simples geração de relatórios de comportamento de mercado. Não importa como o mercado está hoje. Importa é identificar os indícios de mudança em relação ao que esta hoje. Isso vai transformar o jogo. E é preciso buscar perspectivas sobre o que se observa, olhar por vários ângulos, a partir de diferentes pessoas envolvidas no negócio. Gerar uma interpretação. Mas de maneira coletiva. Inteligência coletiva.

O coletivo é fundamental na antecipação do ambiente competitivo. Ninguém detêm todo o conhecimento. Ele está espalhado por toda parte, detido por todos (Pierre Lévy). Inteligência coletiva é juntar as peças do quebra-cabeças, que não são dadas de maneira fácil nas manchetes do jornal. Estão dispersas entre as várias páginas do jornal, entre as várias páginas da internet, na cabeça das pessoas com quem trabalhamos, lá fora, saindo da boca das pessoas, nas conferências, nos encontros com os fornecedores, com clientes e porque não com concorrentes. Nem todos conseguem reunir estas peças adequadamente, através de um processo de inteligência competitiva eficaz, que gera conhecimento acionável. Que gera inteligência, conforme gostam de dizer os profissionais da área, gerar inteligência acionável. De maneira coletiva

*Fernando de Almeida responsável pela Fuld, Gilad, Herring Academy of CI no Brasil, número 1 nos EUA em cursos em Inteligência Competitiva. Fundador da ADVS Brasil (www.advsbrasil.com.br), associada à ADVS França, voltada a consultoria e pesquisa em Inteligência Competitiva e Estratégia. É coordenador do MBA Inteligência Estratégica da Fipe

 

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