Ponto de Vista

O que é e o que não é Inteligência Competitiva

Fernando de Almeida, coordenador do MBA Inteligência Estratégica da Fipe, discute o conceito de IC, além dos erros e acertos em sua aplicabilidade no meio corporativo.

Os textos sobre Inteligência Competitiva de uma forma geral relatam casos e experiências nas empresa. Sugerem modelos oriundos das diferentes experiências profissionais, mas ainda passíveis de comprovação mais ampla. É ainda um tema novo nas empresas. As discussões sobre IC começam a ser encontradas com mais frequência na década de 60. Discussões surgiram sobre Inteligência Competitiva nos EUA com origem na área de inteligência militar. Chegaram às empresas conceitos da agência de inteligência americana, a CIA, que foram adaptados para análise da concorrência, sendo Herring (Academy of CI), precursor da área.

Alguns procuram preencher essa lacuna, tal como Saayman (2008) que com um estudo quantitativo busca avaliar os modelos trazidos da experiência prática que procuram descrever o processo de IC nas empresas. Apesar de procurar identificar as particularidades das etapas de 1. planejamento e foco, 2. coleta, 3. Análise, 4. comunicação, Saayman só consegue efetivamente observar três etapas distintas nas empresas, uma vez que as etapas de análise e comunicação se mostram confundidas em uma só etapa! É possível que este resultado se deva ao fato que boa parte da amostra é composta por empresas de pequeno e médio porte e que nestas, análise e comunicação não são etapas claramente distintas, muitas vezes sendo feitas de maneira conjunta pelo corpo diretivo de maneira pouco estruturada.

Alguns entendem o processo de inteligência desenvolvido pelas empresas como algo mais amplo e que a forma de se fazer inteligência se relaciona à viabilidade ou facilidade em se analisar o ambiente competitivo. Ambientes mais complexos são vistos como de difícil compreensão e exigem processos menos sistemáticos e procedurais de Inteligência Competitiva (planejamento, identificação de necessidades, coleta, análise e disseminação).

Para Ben Gilad, por exemplo, a riqueza dos processos de inteligência está na capacidade de analisar o ambiente competitivo, gerar perspectivas a partir do que se observa. Defende o que chama de a escola dos Analysts.

Gilad vê a atividade de IC de forma mais abrangente que apenas a análise sistemática de dados de mercado, que é o que chama de a escola dos Reporters, isto é, elaboradores de relatórios.

Na França, publicações de Inteligência Competitiva como as de Lesca (ADVS), procuram aproximar-se de conceitos mais ligados a interpretação de sinais fracos, à interpretação coletiva do ambiente competitivo e inteligência coletiva.

Mas o que é então a inteligência da empresa, inteligência competitiva? É um processo, é dinâmico. Um dado, uma informação em si não é inteligência. Da leitura, análise e interação com a informação é que emerge a inteligência, a perspectiva que Gilad sugere que se busque. Da mesma forma, um código de software estático não é um sistema de informação. O sistema de informação só se revela na medida em que é processado, só se revela na execução do código. Da mesma forma, a IC não é inteligência se apenas produz relatórios e documentos que organizam os dados e a informação. O produto da inteligência só existe na medida em que existe um processo que mantém a informação viva, que a trata e que gera ação. Ou decisão sobre não agir.

Uma ação, não apenas um relatório. A inteligência competitiva é ao mesmo tempo um processo e um produto.

Um processo chamado de IC deve sensibilizar as pessoas a agirem, a decidirem. E para que isto ocorra o processo de inteligência deve estar integrado à atividade gerencial, fazer parte das discussões do negócio.

Nota-se, no entanto, que muitos não incluem a ação em si como parte integrante do processo de IC. É algo posterior ao ciclo de inteligência que se encerra no que se costuma chamar da etapa de disseminação ou comunicação.

Por fim, é importante destacar que a atividade de IC transcende uma “área de IC”, pois pode ser desempenhada sem uma função explícita na estrutura organizacional criada especialmente para isto. O exercício de Inteligência Competitiva é uma atividade de todos em uma empresa, e não apenas de uma área.

* Fernando de Almeida é responsável pela Fuld, Gilad, Herring Academy of CI no Brasil, número 1 nos EUA em cursos em Inteligência Competitiva e dinâmicas de War Games. Fundador da ADVS Brasil (www.advsbrasil.com.br), associada à ADVS França, voltada a consultoria e pesquisa em Inteligência Competitiva e Estratégia. É coordenador do MBA Inteligência Estratégica da Fipe.

 

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