Consumidor brasileiro continua sendo o mais otimista, já que a expectativa para o crescimento da renda é uma das maiores entre os países pesquisados.
O Credit Suisse Research Institute publicou sua segunda edição anual do “Emerging Consumer Survey”, um estudo detalhado que traça o perfil do ambiente de consumo nos países que compõem o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), na Turquia, na Arábia Saudita, no Egito e na Indonésia. No total, esses consumidores representam 3,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo. A pesquisa busca delinear o perfil específico dos padrões de gasto e das preferências dos consumidores que estão no centro de uma mudança estrutural na demanda global. Para realizar esse projeto, o Credit Suisse contratou a AC Nielsen, empresa de pesquisa em mercados globais.
Stefano Natella, Head de Global Equity Research do Credit Suisse, declara: “em um momento em que os investidores questionam a sensibilidade das economias emergentes às tendências macro globais e à agitação geral do mercado, principalmente na Europa, essa pesquisa proporciona aos investidores uma perspectiva única sobre o comportamento dos consumidores no seu nível mais elementar. De forma mais ampla, a pesquisa destaca as principais diferenças de renda e demografia e os determinantes sociais no mundo emergente, que são questões essenciais na formação das preferências de consumo e também para o posicionamento das marcas das empresas”.
Andrew T. Campbell, corresponsável pela área de Latin America Equity Research do Credit Suisse, afirma que “os resultados mostram que o consumidor brasileiro continua sendo o mais otimista, já que a expectativa para o crescimento da renda é uma das maiores entre os países pesquisados. O aumento recente da renda nominal mitigou os efeitos da inflação, o que fez com que a população continuasse a consumir e direcionasse seus gastos, cada vez mais, para itens que não são de primeira necessidade, como produtos de beleza e tecnologia. Destaque também para a intenção de compra de imóveis, que segue em alta, apesar de 73% dos entrevistados apostar no aumento dos preços”.
Níveis variados de otimismo
A pesquisa sugere que a confiança entre os consumidores emergentes permanece razoavelmente forte. Dos mais de 14 mil adultos entrevistados na pesquisa em oito mercados, 35% acreditam que suas finanças pessoais vão melhorar nos próximos seis meses e 9% esperam algum grau de deterioração. O otimismo é mais alto no Brasil, na Índia e na China, e mais baixo no Egito, na Turquia e na Rússia.
Entretanto, a confiança diminuiu em comparação com o ano passado. Esse dado é particularmente notável entre os consumidores que alocam uma proporção significativa de sua renda em gastos com alimentação. A alta inflação dos alimentos nos últimos dois anos deixou marcas visíveis. A boa notícia é que a perspectiva para a inflação deve se tornar substancialmente mais favorável nos próximos meses, já que os altos preços dos alimentos no primeiro semestre de 2011 formam uma base favorável para o primeiro semestre de 2012.
Gastos discricionários interrompidos
Os temas estruturais que sustentam as perspectivas para o consumo nos mercados emergentes são a mudança na direção de uma tendência mais discricionária, o que caracteriza os gastos no mundo desenvolvido, e um afastamento dos itens de primeira necessidade, em um movimento de reequilíbrio global do consumo.
Entretanto, essa mudança estrutural de longo prazo nas economias emergentes na direção de um aumento nos gastos discricionários foi interrompida, de modo geral, no último ano, já que a perda de dinamismo econômico e a alta inflação dos alimentos afetaram a confiança do consumidor.
A pesquisa destaca a redução, ao longo do ano passado, na exposição média dos consumidores aos seguintes segmentos:
– Calçados esportivos e moda – setor que sofreu o maior impacto da redução na confiança do consumidor e do aumento nos preços médios dos alimentos.
– Plano de saúde particular – quatro dos sete países registraram queda na alocação dos gastos com planos de saúde particulares.
– Compra de imóvel residencial – caiu no total, permaneceu estável na China e Rússia e desacelerou ligeiramente na Índia e no Brasil.
Entretanto, entre os setores em que o fundamento estrutural se manteve intacto, apesar do ciclo, e a taxa de penetração do consumo aumentou, destaca-se:
– Telefonia móvel – impulsionado predominantemente pelo aumento no número de aparelhos nos segmentos de renda mais baixa.
– Smartphones – no extremo oposto ao dos telefones celulares básicos, os segmentos de renda mais alta têm sido os principais determinantes do crescimento neste setor.
– Computadores e internet – apresentou forte crescimento nas taxas de penetração durante o ano.
– Cosméticos – o consumo parece ter se acelerado na margem; os grupos de renda mais baixa no Brasil foram importantes vetores do crescimento.
– Educação – consumidores em seis dos sete mercados pesquisados declararam ter alocado recursos para educação privada durante o ano, principalmente na Índia.
Apetite por tecnologia
Um dos principais focos da pesquisa foi a possível aceleração na penetração da tecnologia no mundo emergente, tanto em telefonia móvel como em computação. Os dados da pesquisa indicam que a força da demanda por tecnologia varia de acordo com a renda e também com o mercado.
Por exemplo, os dados indicam que a penetração de smartphones é maior entre os grupos de renda mais baixa na Arábia Saudita do que entre os grupos de renda mais alta no Brasil e na Rússia. O número de computadores é mais alto nos segmentos de renda média na China do que entre os segmentos de renda mais alta na Arábia Saudita, Rússia ou Índia. Algumas explicações possíveis para esse fenômeno são a força e a sofisticação da rede de distribuição; os preços relativos e o desenvolvimento relativo da infraestrutura de banda larga.
No futuro, a pesquisa sugere que o crescimento da penetração de telefones celulares promete ser relativamente robusto na Indonésia (mesmo assim, 29% da amostra da pesquisa declarou não ter telefone celular), na Índia (6% do total não tem celular, porcentagem que sobe para 12% entre os segmentos de renda mais baixa) e no Brasil (onde 11% da população de renda mais baixa não tem telefone celular).
O dinamismo da penetração de smartphones deve permanecer forte no Brasil e na China. As taxas de penetração na Arábia Saudita também devem manter a tendência positiva. Os fatores que sustentam esse crescimento são o aumento no rendimento real e a perspectiva relativamente mais otimista para esses consumidores, o tamanho e a afluência dos segmentos de renda média e alta em cada um desses mercados e o atual dinamismo (a penetração de smartphones aumentou 22%, 11% e 5% na Arábia Saudita, no Brasil e na China, respectivamente, no último ano).
Por razões similares, as vendas de computadores possivelmente serão mais fortes no Brasil e na Arábia Saudita. Apesar do forte dinamismo do ano passado, as taxas de penetração ainda são de apenas 67% e 63% nesses dois mercados, respectivamente, em comparação com uma taxa de 83% na China.
Brasil: vivendo o presente
O consumidor do Brasil continua se destacando como o mais otimista entre os entrevistados da pesquisa. Os brasileiros costumam gastar em vez de poupar. Existe um apetite por ativos reais, como imóveis, quando não são considerados os ativos financeiros.
As expectativas sobre renda fundamentam esse sentimento de otimismo. Em média, o consumidor brasileiro espera que o crescimento dos rendimentos das famílias no Brasil seja um dos mais altos entre os países pesquisados, e a maioria projeta aumentos superiores a 10%, ou de cerca de 5% em termos reais. O forte crescimento da renda nominal no último ano também protegeu o consumidor no Brasil contra a inflação, mais do que em outros países.
Nem mesmo 7% dos rendimentos das famílias são declarados como poupados, e mais da metade dos entrevistados afirma não ter dinheiro extra para poupar. Essa situação é mais comum nos países onde o consumidor sente um aperto significativo do que em países cujas finanças parecem robustas.
As intenções de compra de imóveis são mais altas aqui do que em outros países e aumentaram durante o ano. Um total de 73% dos entrevistados espera um aumento nos preços dos imóveis – percentual superior ao de qualquer outro país BRIC. Somados a um histórico de alta inflação, os ativos reais talvez mereçam mais do que uma atração estrutural.

