A discussão sobre conectividade deixou de ser apenas sobre acesso e passou a girar em torno de impacto. No painel “Inclusão, soberania e resiliência: O papel das políticas públicas para o futuro da conectividade”, lideranças do Brasil, Uruguai e Costa Rica defenderam que o desafio do Sul Global agora é avançar para a chamada conectividade significativa, aquela capaz de transformar a vida das pessoas por meio de aplicações, serviços e inclusão digital efetiva.
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O tema ganha relevância em um cenário em que, globalmente, ainda existem 2 bilhões de pessoas desconectadas e um déficit trilionário de investimentos para fechar essa lacuna. Para além da infraestrutura, o debate aponta para a necessidade de políticas públicas que integrem acesso, uso qualificado e desenvolvimento econômico, somado ao desafio de levar a acesso à informação e conteúdos transformadores, evitando que a internet seja meramente palco de entretenimento.
“Presisamos criar aplicações de emprego, saúde, educação, serviços públicos, de forma que a universalização não se limite à infraestrutura de conectividade”, disse Carlos Manuel Baigorri, presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Trajetória da América Latina
Ao revisitar a trajetória das telecomunicações na América Latina, o painel evidenciou que não há um modelo único. O Uruguai seguiu um caminho de forte presença estatal, com uma operadora pública liderando a expansão da fibra óptica e alcançando quase a totalidade do território. O país não apenas universalizou o acesso, como avançou no uso, com iniciativas como conectividade em todas as escolas, universidades e órgãos públicos, além de programas de inclusão digital que garantem dispositivos para estudantes.
Já a Costa Rica adotou a liberalização mais recente, com abertura do mercado a partir de 2011 e forte uso de fundos setoriais para conectar populações vulneráveis. O país também evoluiu no desenho de leilões não arrecadatórios, inspirados no modelo brasileiro, priorizando a instalação de infraestrutura em regiões onde o investimento privado não chegaria naturalmente.
O Brasil, por sua vez, construiu um modelo baseado em competição e assimetria regulatória. Segundo Carlos Manuel Baigorri, o ponto de inflexão ocorreu a partir de 2012, com a revisão do modelo regulatório que reduziu barreiras de entrada e estimulou a atuação dos provedores de pequeno porte. O resultado foi uma transformação profunda no mercado de banda larga fixa, com aumento da competição, queda de preços e expansão acelerada da cobertura.
“Os provedores foram responsáveis por levar conectividade a regiões onde antes não havia interesse econômico”, destacou Baigorri, ao reconhecer o papel dos ISPs na inclusão digital brasileira. Esse movimento, segundo ele, foi possível graças a um ambiente regulatório mais leve e previsível, capaz de atrair investimentos privados.
Valor real
Hoje, no entanto, o desafio vai além da expansão da rede. A agenda passa por garantir que a conectividade gere valor real. Isso inclui levar aplicações de educação, saúde e serviços digitais, por exemplo, a regiões remotas, como já ocorre em iniciativas de telemedicina na Amazônia e em projetos de conectividade em áreas rurais.
Baigorri, que é candidato ao cargo de secretário-geral adjunto da União Internacional de Telecomunicações (UIT), tem defendido internacionalmente a necessidade de ampliar a voz da América Latina e do Sul Global nesse debate. A proposta é reposicionar a conectividade como ferramenta de desenvolvimento, e não apenas como infraestrutura.
Nesse contexto, a conectividade significativa exige também a digitalização dos serviços públicos. Carlos Watson, presidente da SUTEL – Costa Rica,
destacou que, apesar dos avanços em acesso, muitos processos ainda exigem presença física, o que limita o potencial da transformação digital. A meta, segundo eles, é fechar o ciclo completo dos serviços digitais, reduzindo a dependência de atendimento presencial.
O Uruguai reforçou essa visão ao apontar novos desafios ligados ao uso da tecnologia, como a inclusão de idosos e a preparação da população para interagir com inteligência artificial. Embora o país tenha alcançado altos níveis de conectividade, ainda enfrenta desigualdades no uso, especialmente entre diferentes faixas etárias.
Para o setor, o painel deixa a seguinte mensagem: infraestrutura continua sendo essencial, mas não é tudo. A construção de um ambiente regulatório eficiente, o alinhamento entre governo e mercado e o foco em aplicações que gerem impacto concreto serão determinantes para o próximo ciclo de crescimento.
Ao reunir experiências distintas, o painel mostrou que o Sul Global não apenas enfrenta desafios comuns, mas também tem soluções relevantes para compartilhar. A conectividade significativa, nesse cenário, surge como o novo norte das políticas públicas, e como o principal indicador de sucesso para o futuro digital.
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